27 de abril de 2008

Odeio esse leão

Acabei de fazer a declaração do IR e pagar o imposto pela internet. Coisa irritante, você ver o quanto foi recolhido pelo governo ao longo do ano. O IR é mais nocivo para o próprio governo que os demais impostos. Dá a chance para o cidadão sentir o peso do estado nas costas, de uma vez só. Uns trocados no almoço, mais um pouco no supermercado, na bomba de combustível. Esses passam batidos, mas quando é de uma vez só, a gente fica muito puto.

26 de abril de 2008

A primeira a gente não esquece

Apesar de velejar desde 2003, só fui participar de minha primeira regata hoje. Mas, quem diria: fui o primeiro a chegar de volta na marina! Com motor, claro. O dia foi lindo, mas infelizmente sem vento. Tínhamos, os tripulantes do Gostosa e dos demais 22 barcos participantes, três horas e meia para completar o percurso. Ninguém conseguiu.

Alguns, seis se não me engano, até esperaram até o último momento para ligar os motores e voltar. Eu e Rafael, meu valoros proeiro, não tivemos tanta paciência. Após fazer papel de rolha no meio da Baía Norte por uma hora e meia, lançamos ferro, demos um mergulho e ligamos o motor para voltar à marina Santo Antônio e a um delicioso carreteiro, chope à vontade (para o Rafa) e coca-cola de graça (para mim).

Esse foi o 2º Passeio das Cracas que a marina Santo Antônio, onde deixo meu barco, promove. No ano passado, quem ganhou foi um colega de lá, Carlos, com um Day Sailer muito parecido com o Gostosa. Um pouco mais novo, mas tão competitivo quanto o meu barco. Por causa desse histórico, Rafa e eu estávamos empolgados para disputar. Mas o vento não ajudou.

[Ouvindo: Think For Yourself - The Beatles - Rubber Soul]

19 de abril de 2008

Best episode ever

Quem gosta de South Park - e até quem não gosta muito, mas curte uma piadinha bem feita - não pode deixar de assistir o último episódio exibido nesta semana nos EUA: Over Logging. É o sexto desta 12ª temporada.

A história começa com as famílias de South Park ficando sem internet. O desespero que toma conta da cidade é hilário. Exatamente o que acontece, guardadas as proporções, quando eu fico sem rede na empresa. Muito engraçado, com citações a filmes conhecidos, como Vinhas da Ira e Independence Day. Eu baixei via torrent do Mr. Twig.

[Ouvindo: Let's Go Crazy - Prince - The Very Best Of Prince]

8 de abril de 2008

Conto com instruções didáticas

"Puta que pariu" foi a primeira frase que veio à cabeça do autor para começar o conto. O importante é ganhar o leitor na primeira frase, com impacto. Então:

– Puta que pariu – exclamou com um sorriso o personagem de nome comum que é para o leitor se identificar mais fácil. João ainda era um gurizote, mas nunca tinha visto mulher tão linda. E ainda mais sorrindo pra ele.

João começou a derreter dentro da camiseta bege escrito "Ratos de Praia", uma marca de surf famosa na época, porque é importante ser preciso para  dar veracidade à história. Além disso, os pequenos detalhes ajudam a definir situação e tempo do conto. Com as costas já empapadas de suor, mais por causa do sorriso da morena alta, de olhos verdes e corpo perfeito do que pelo esforço de jogar pacau com Adroaldo, Lin e Sandro. O nome dos personagens secundários não é tão importante, mas também não precisa exagerar. Um nome estranho basta. O resto tem que ser verossímil.

O bolinho de fichas diminuía ao lado da mesa e nada dela ou da amiga se afastarem. João criou coragem e olhou para a garota, se esforçando para concentrar o foco no rosto, e não no decote ou na pele branca dos seios.

– Cansei de jogar. Vamos tomar um sorvete?

Ele mesmo ficou impressionado com a atitude e o autor também, embora soubesse que esses pequenos clímax são importantes para manter o leitor atento na história.

Mas atento mesmo estava João, mergulhando no verde dos olhos de Priscilla, assim com dois eles. Era de Florianópolis e estava na casa de parentes, passando duas semanas em Balneário Gaivota. Estava gostando, sim, mas o mar era muito bravo e ela pouco ia à praia, dados importantes para se definir a personalidade do personagem e que explicam um pouco o porquê da bancura da pele da garota. É parte do jogo de texto fazer o leitor entender por si as conexões entre uma parte e outra do conto.

– Durante o dia eu prefiro as praias de Floripa, mas a noite aqui é mais legal, mais tranquila – completou a garota, querendo parecer cosmopolita.

"Se ela tá querendo impressionar, é um bom sinal", pensou João, enquanto pagava as duas casquinhas de sorvete. Isso num tempo em que Balneário Gaivota não tinha brigas de rua, não sofria com gangues vindas da região metropolitana de Porto Alegre para atazanar os moradores. Era populada, basicamente, por gente que morava nas cidades próximas e isso já diz bastante sobre a diegese da história.

Os dois subiram a rua sem destino certo, tomando seu sorvete e conversando. Coisas bobas, que fazem todo o sentido quando se é adolescente. João, destro, terminou primeiro a casquinha de chocolate. A mão esquerda de Priscilla, nessa altura já chamada de Pri, deu bobeira e foi engolfada pela mão de João, sem resistência. Num momento assim é que o autor pensa: "Como é que eu termino essa merda de conto? Tenho que dar uma dica de como essa história acaba". Mas os três seguem em frente – João e Priscilla passeando e o autor escrevendo.

Já no final da rua, próximo do bar onde João e os amigos jogavam pacau até agora há pouco, seis parágrafos acima, os dois pararam como que combinados sobre o que fazer. Devagarinho foram aproximando os rostos e se beijaram de leve, nos lábios. Uma, duas, três vezes. Na quarta, as línguas se enrolaram, João sentindo o gelado do sorvete na boca de Priscilla. Encostaram em um muro qualquer e ficaram por ali mesmo por alguns minutos, até que a garota deu a deixa, que, no fundo no fundo, entrega o final do conto:

– Preciso ir pra casa. Minha tia deve estar esperando. Além disso, minha prima ficou sozinha no bar – disse Priscilla (o autor não esqueceu da personagem sem nome que acompanhava a protagonista e que ainda pode ter um papel importante).

– Vou te ver de novo?

– Claro, estou toda noite por aqui, até ir embora.

Priscilla se virou para encontrar a prima e João foi-se faceiro, orgulhoso de si mesmo, ao encontro dos amigos. Contou que ela era de Florianópolis, que era maravilhosa, tinha uns peitinhos lindos, uma bundinha firme, uma boca quente e beijava muito bem. Era perfeita e podia muito bem ser sua namorada. Quem sabe na noite seguinte.

Priscilla foi caminhando para casa da prima comentando a noite. Disse que João era desajeitado com as mãos, suarento, tinha o hálito meio esquisito e uns papos nada a ver.

– Saco, não posso mais vir para esse lado da praia ou esse chato vai grudar no meu pé – completou a menina, a título de estranhamento, que normalmente é o clímax de um conto, o ponto onde a história dá uma virada e surpreende o leitor. "Esse ficou fraco", pensa o autor. "Mas o leitor dará um desconto, afinal não é mole escrever um bom conto em menos de uma hora", completa, olhando para a morena de olhos verdes e pele branca que ressona suavemente ao seu lado na cama.

[Ouvindo: Royal Orleans - Led Zeppelin - Presence]

6 de abril de 2008

Viajandão

São Paulo seria uma excelente cidade se tivesse o trânsito de Jacinto Machado. Tenho ido bastante para lá - São Paulo, não Jacinto Machado. Desde o início de março foram três viagens para a maior cidade da América Latina. Uma trabalho e duas para passear.

Cheguei de Sampa agora há pouco, pela Varig. Desta vez, consegui comprar umas passagens baratinhas, 48 pilas, e fui para o aniversário da Fernanda, sobrinha mais nova da Lu. Fomos passear também, claro.

Na feirinha da Benedito Calixto, consegui comprar algo que eu ando atrás há um bom tempo: um Ray-Ban Bausch & Lomb estilo aviador com armação dourada, no desenho tradicional dos anos 1970. Achei um em bom estado e arrematei depois de pechinchar um pouco com o feirante. Vou levar amanhã na ótica para colocar lentes de grau e dar uma limpada geral na armação. Vamos ver como vai ficar o resultado final.

Passear em SP sempre é legal. Tem muita coisa para fazer e excelentes opções gastronômicas. Uma coisa que não contei ainda aqui foi a nossa visita - da Lu e minha - a uma lojinha na região dos Jardins em Sampa que se chama O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo. Pretensiosa, não? Eu também achei, mas o bolo é realmente muito bom. Recomendo uma passada. Fica na Oscar Freire, perto da Alameda Casa Branca. Fomos lá na outra vez que estivemos em São Paulo.

Desta vez, a pedida foi tomar um café na Vila Mariana, numa patisserie que se chama Delícias de Paris. Muito boa. Tão boa que exageramos um pouco no café no sábado e só fomos sentir fome à tarde. Eu almocei às 15 horas. A Lu só foi comer no aniversário da sobrinha.

O nome da patisserie lembra o de outra em Curitiba, também muito boa: Delícias da França. Há duas semanas estive na capital paranaense a trabalho e tive uma reunião ao lado da padaria. Infelizmente, não me dei conta antes, ou não teria tomado café no hotel.

Nesta viagem a Curitiba, passei um trabalho do cão. Dirigindo um Gol alugado, dei uma esbarrada de leve numa picape Corsa. Para o seguro da locadora valer, tive que fazer um boletim de ocorrência. Mas em Curitiba, acidentes sem vítima não são atendidos pela polícia. Eles não fazem o B.O. O motorista tem que ir ao batalhão de trânsito e registrar a ocorrência. O problema é que eu, meio perdido na cidade, tive que ir até o bairro Tarumã, sozinho e com pressa por causa de uma reunião. Trabalheira, mas que acabou não tendo outros desdobramentos. A locadora não me cobrou nada pelo conserto.

[Ouvindo: Sílvia - Camisa de Vênus - Viva]

2 de abril de 2008

No bar

– Olha só, eu não sou desses caras que se derretem por qualquer menina bonitinha.

– Tá bom, vou fazer de conta que acredito – respondeu Júnior, bebericando a Stella Artois gelada.

– Sério, cara! Comigo não tem isso de ficar olhando pros lados e procurando o peitinho mais bonito, a budinha mais redonda, os olhinhos mais azuis. Nina, nina, não, velho! Pra mim, a guria tem que ter substância.

– Tá bom, João. E você, claro, adivinha o quanto de "substância" ela tem, antes de chegar na menina – ironizou o amigo, fazendo o sinal de aspas no ar com os dedos.

– Ah, dá pra saber, sim. Aquela ali, por exemplo, é uma porta. Olha o jeito de ela rir com as amigas. E essas duas do lado, que se tratam de "miguxa". Puta que pariu, sair com uma "miguxa", nem pensar!

– Ih, cara, acho que a loirinha ouviu. Fala baixo, porra!

– Deixa quieto, tenho certeza que é uma dessas que confunde Stephen Hawing com Stephen King, que acha que Italo Calvino é espanhol para italiano careca.

– Não zoa com a gatinha, pô. É bem engraçadinha – retruca Júnior levantando a garrafa e sorrindo para a garota.

– Tu só quer saber de corpo, né? Tudo bem, tu é meio burrão mesmo.

– Pô, não precisa sacanear, cara! Tá, e aquela ali que tá olhando pra nós. Quer dizer, mais pra ti, pelo visto.

– Olha, parece que pode ser uma guria interessante – avalia João.

Ele levanta para ir ao banheiro e avaliar a situação. Na ida, dá um sorriso para a garota, linda nos seus 22 anos de idade. Morena com a pele branca e os olhos levemente esverdeados. Belo corpo, rosto bonito. Jeito meigo. "Dá pra chegar", raciocina João. E chega, na volta do banheiro.

– Oi, tudo bem?

– Tudo – responde a garota com um sorriso.

– Sou o João. Você?

– Adela.

– Nome incomum. Qual a origem?

– É o nome de uma santa da Romênia.

– Legal. Já esteve na Romênia? Ouvi dizer que Bucareste é muito bonita.

– Não, nunca. Nunca viajei para fora do Brasil.

– Se pudesse escolher um lugar para ir agora, para onde iria?

– Acho que Nova Iorque, sempre quis conhecer a Europa.

A frase doeu nos ouvidos de João. Ele fixou-se nos olhos esverdeados, avaliou o cabelo escuro, o rosto branco, os seios de 22 anos, a barriguinha lisa com um piercing dourado. Avaliou a situação e continuou batendo papo com Adela. Fazer o que. Ele era só discurso. Era homem e ponto final.

[Ouvindo: Southbound Again - Dire Straits - Dire Straits]

24 de março de 2008

Tem que ouvir: The Dark Side of the Moon

thedarksideofthemoon Meu primeiro disco do Pink Floyd foi o óbvio The Wall, comprado no Cine Foto Som Mazucco, uma loja de Araranguá em que meu pai tinha conta. Aos 14 anos eu descobri que bastava chegar lá, pegar um disco ou fita, dizer pra por na conta do seu João Proença e pronto. Comprei The Wall, The Final Cut, Led IV, um disco do RPM, um da Blitz e gravei algumas fitas. Claro que logo que a conta chegou nas mãos do meu pai, eu tomei uma baita bronca. Mas com a conta no Mazucco, consegui tomar contato com muita música boa.

The Dark Side of the Moon, o disco que eu considero o melhor do Pink Floyd e que faz hoje 35 anos de idade, eu só ganhei mais tarde, quando minha vó mandou escolher um disco de presente de aniversário na Hermes Macedo, a loja de departamentos que existia na época. Era meu terceiro do Pink Floyd. O quarto foi Ummagumma, também comprado na HM, e o quinto, Animals, trocado por um Kraftwerk que meu primo me deu.

O "disco do prisma", como The Dark... é mais conhecido, é praticamente unanimidade entre fãs do Floyd. Foi um dos primeiros álbuns temáticos que depois se tornaram a marca de qualquer banda de rock psicodélico que se preze. Lançado em 1973, os efeitos de relógios tocando, caixas registradoras, vozes entre as faixas, tudo contribuiu para que o disco se tornasse um marco do rock. As canções eram inovadoras, tinham letras inteligentes. A melhor definição dos britânicos, para mim, está em Time, a terceira faixa: "Hanging on in quiet desperation is the English way".

O set do álbum é:

  1. Speak to Me (Mason, Gilmour, Waters, Wright)
  2. Breathe (Mason, Gilmour, Waters, Wright)
  3. On the Run (Gilmour, Waters)
  4. Time (Gilmour, Waters, Wright, Mason)
  5. Breathe (Reprise) (Gilmour, Waters, Wright, Mason)
  6. The Great Gig in the Sky (Wright)
  7. Money (Waters)
  8. Us and Them (Wright, Waters)
  9. Any Colour You Like (Gilmour, Wright, Mason)
  10. Brain Damage (Waters)
  11. Eclipse (Waters)

Como baixista - ou pelo menos metido a baixista - acho a linha de baixo de Money uma das melhores e mais divertidas de tocar. O tempo é diferente e o baixo carrega a música toda, praticamente. Quando ouvir o álbum, vale prestar atenção nos vocais, sem letra, de The Great Gig in the Sky. Foram feitos pela cantora Clare Torry, convidada pelo produtor Alan Parsons para improvisar sobre a canção do tecladista Richard Wright. Ela achou que não ficou bom. Mas os membros da banda e o produtor discordaram, para nossa felicidade.

O link para baixar o álbum, via torrent:

The Dark Side of the Moon

[Ouvindo: Us And Them - Pink Floyd - Dark Side Of The Moon]

22 de março de 2008

"You underestimate the power of the dark side"

Dia 16 Lu e eu estivemos em São Paulo visitando a Exposição Star Wars Brasil, uma mostra de memorabilia dos seis filmes da série Guerra nas Estrelas. Obviamente, é coisa pra quem curte. É o nosso caso.

Entre as peças, havia a nave que Luke Skywalker usou para chegar ao planeta pantanoso em que conheceu o mestre Jedi Yoda. Impressionante como é fuleira. Toda mal ajambrada. Mas quando peguei a câmera para fazer uma foto e olhei no visor digital: o bagulho foi feito para aparecer bem nas câmeras, não ao vivo. Ao vivo é um monte de compensado, isopor, uns pedaços de engrenagens de motor. Na foto, é uma nave espacial rebelde.

Era a primeira peça da exposição e com "olhos de câmera" eu visitei o resto da mostra, no Porão das Artes do Ibirapuera. Maquetes, manequins com os trajes originais, bonecos de alienígenas, wookies e ewoks, modelos em escala e alguns em tamanho real. Tudo muito legal. Mas o que mais gostei foram os bonecos do R2D2 e do C3PO, junto com os storyboards originais de algumas cenas da série. Especialmente um da batalha entre Luke e Darth Vader, em O Império Contra-Ataca. Nas descrições das cenas, fala-se em "Laser Sword" (espada laser) e não em "Light Saber" (sabre de luz), como ficaram conhecidas as armas Jedi ao longo de toda a série.

Outro detalhe legal é o desenho original do C3PO, que lembrava muito mais o robô de Metrópolis, de Fritz Lang. A concepção original de R2D2 (ou Artoo, como estava referido em um dos storyboards) já ficou mais próxima da versão que todos conhecemos das telas.

[Ouvindo: Walkabout - Red Hot Chili Peppers - One Hot Minute]

20 de março de 2008

Os dias estão simplesmente lotados

O título eu emprestei de um livro de quadrinhos do Calvin, mas cai como uma luva para as últimas duas semanas. Desde o início de março, a correria é grande, tanto no trabalho quanto na vida pessoal.

De mais interessante, algumas peculiaridades da uma viagem a trabalho para São Paulo, a trabalheira que foi minha última estada em Curitiba - também a trabalho -, o passeio que Lu e eu fizemos a São Paulo para um casamento e para ver a Star Wars Expo Brasil e os perrengues que ando passando com o apartamento.

Como nos jornais de tevê, eu dei a escalada. Mais detalhes depois dos comerciais.

12 de março de 2008

Cão na madrugada

As pálpebras de João pesavam dois quilos cada. Cada olho tinha um metro cúbico de areia arranhando a córnea. A cada piscada, os olhos se fechavam mais e mais tempo. A madrugada não era mais sua amiga. Talvez fosse o tema do trabalho, chato e pouco desafiante. Talvez fosse apenas sono.

Mas um ruído diferente no corredor chamou a atenção e descarregou um pouco de adrenalina no corpo de João. Um barulho de patas de cão no piso de cerâmica. As unhas compridas de um animal. Mas João vivia sozinho, nem cachorro, nem filhos, nem esposa. Ele e a madrugada e só.

Uma virada cautelosa na cadeira de espaldar alto, olhos fixos na porta do escritório para o corredor. Nada. O mesmo silêncio de sempre no apartamento vazio.

João volta a se concentrar na conta caixa, da DRE, no balanço da empresa fictícia. Os resultados foram satisfatórios? A lucratividade atingiu as metas? Perguntas chatas com respostas chatas. E o ruído de patas novamente no corredor.

Agora a cadeira se vira de sopetão para João dar de cara com um cachorro. Um doberman preto, quieto, olhando para João. Olhos avermelhados na escuridão do corredor.

O que esse cão faz ali, como entrou, será feroz? As perguntas já não são tão chatas. São altamente relevantes para João, que busca e busca as respostas sem sucesso.

– Pode voltar a trabalhar, não quero atrapalhar – diz o cachorro, com voz tranquila, que não parecia combinar com o porte do animal.

Um cachorro que fala? É só o que faltava para João, sempre acompanhado nas madrugadas por alucinações, anjos e demônios. Estava velho demais para cães que falam. Continuou olhando o doberman.

– Está estranhando minha voz? Bastante singular, porque essa voz foi você quem me deu.

"É claro", pensa João. "O cachorro que fala e está no meu corredor não fala e nem está no meu corredor. Está na minha cabeça".

– Exatamente – retruca o bicho, como se lesse o pensamento de João.

– Você ouviu o que eu pensei? – pergunta João em voz alta. Alta demais para a madrugada.

– Eu sou o seu pensamento. Estou em seu pensamento. Eu sou. Eu existo.

"É só que me falta. Além de falante, o cachorro é metido a filósofo", racionaliza João.

– O filósofo é você. É você quem fala, quem arrasta as unhas no corredor escuro. É você que tem os olhos vermelhos na escuridão. Você é eu, e eu, você. E ambos somos. Só.

– Escuta aqui, Rex, vê se me deixa em paz, então. Preciso terminar isso aqui. Xô, vai embora! Passa!

– Não funciona assim. Eu sou fruto do seu pensamento. Das sinapses cansadas de pensar em gestão, em planejamento estratégico, em propostas comerciais e retornos financeiros. Eu sou o seu eu mais sincero, o seu quadrúpede interior. A besta que estava adormecida no fundo do cérebro e que saiu quando a mente ameaçou dormir de tanto tédio e sono.

– Tá, e como eu faço para você ir embora? – João perguntou.

– Você acorda e pronto.

Foi a senha para João notar o óculos torto caído sobre o teclado do computador, sentir a dor das teclas F6, F7 e F8 que marcavam sua testa, o torpor no braço que esticava-se sobre o mouse pad de forma pouco natural.

Levantou-se, foi ao banheiro e para a cama. E sonhou com números, com contas caixa, DREs e planilhas. E, pela manhã, entre uma colherada e outra de granola, disse a si mesmo que era bem melhor sonhar com cães filósofos.

[Ouvindo: Ya no hay héroes - Loquillo y Trogloditas - Tiempos Asesinos]

4 de março de 2008

Estilo alternativo

Olha só, quem diria, estou fazendo yoga. Comecei na semana passada e tive aula agora há pouco. É no trabalho mesmo, com incentivo da empresa. Estou achando interessante. Pelo menos me mexo um pouco, me estico pra lá e pra cá e paro uns minutos pra relaxar entre as obrigações de trabalho, MBA e família.

Meus colegas que já fizeram yoga disseram que o professor tem um estilo bem "yoga fitness", que não envolve a bobagêra de não comer carne, de ficar ouvindo música indiana ou as Enyas da vida. Teve uma aula que ele até mandou ver num jazz levinho.

Mas alternativo mesmo foi a minha visita à homepata da Luciana. Fiz algumas consultas com otorrinos e alergistas para ver se me livro de uma rinite que me incomoda horrores e não tive resultado. Aí, resolvi apelar.

Ela me preguntou de tudo. Problemas de saúde, se eu já fui sonâmbulo, se tenho bruxismo, qual minha comida preferida, o que eu não como de jeito nenhum e o mais estranho de tudo: se eu tinha medo de monstros ou fantasmas quando era criança.

"Não, não tinha mais do que qualquer outra criança. Mas tinha pavor de Jesus Cristo". Isso certamente intrigou a mulher, mas aí eu contei a história de quando era pequeno e da aparição de Cristo no sótão da minha avó. Ela deve ter achado estranho, mas também quem mandou perguntar uma coisa esquisita dessas.

[Ouvindo: Sysyphus Part Four - Pink Floyd - Ummagumma - Studio Disk]

3 de março de 2008

Jogo interessante

Estou no final do meu MBA em gestão empresarial na Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro, e esta última disciplina é disparada a mais interessante. Chama-se jogo de negócios. Funciona assim: a turma foi dividida em oito equipes, cada uma responsável por dirigir uma indústria de computadores na época da reserva de mercado (lembram, quando não podíamos importar computadores?).

Eu sou o presidente e diretor de produção da minha equipe. Estamos em quatro pessoas e tomamos as decisões sobre quanto produzir, quanto cobrar por cada produto, quanto investir em marketing e pesquisa, aumentar ou reduzir a capacidade da fábrica, contratar ou demitir funcionários, aumentar salários, conceder bônus ou participação nos lucros. Em suma, decidimos quase tudo o que envolve a administração de uma indústria.

A cada três ou quatro dias, nossas decisões são alimentadas num simulador da FGV. O simulador compara as equipes, define a demanda por computadores no mercado, quanto um produto ficou mais atrativo que o outro e dá os resultados. Começamos em último no primeiro mês. Fechamos o primeiro quadrimetres e estamos em quarto. Não considero um bom resultado, mas dá pra encarar.

Nosso principal problema é o lucro. Muito baixo ou negativo. Sinceramente, estou com problemas para controlar os custos de produção, o que afeta os resultados drasticamente. Quanto mais a nossa empresa vende, pior o prejuízo. Mas, tudo bem. Não quebrando antes do final da disciplina, tá bom. Até porque quem falir é reprovado. E já deixei duas cadeiras para trás. Não dá pra ficar mais uma.

26 de fevereiro de 2008

Tempo de reforma

Minha relação com as reformas é de ódio e amor. Reformei um veleiro que estava bem judiado e deixei novinho. Comprei um apartamento detonado e deixei apresentável e agora estou às voltas com um Puma 76 que precisa de restauração.

A reforma do barco me deu um tremendo trabalho porque o cara que contratei era enrolado, não cumpria prazos, dava desculpas para não fazer o trabalho. Depois de muitas idas e vindas o Gostosa ficou pronto e bem reformado. Pelo menos isso.

Com o apartamento foi parecido. O eletricista simplesmente sumiu no meio da obra e a Lu e eu tivemos que terminar sozinhos a instalação elétrica. O encanamento foi muito mal feito e a parede da área de serviço precisou ser quebrada mais de uma vez para isolar um cano de esgoto que o primeiro encanador deixou aberto, vazando dentro da parede. Na verdade, fiquei tão estressado com a reforma que nunca terminei. Até hoje meu apartamento está inacabado.

Agora dei azar de novo com a mão-de-obra. João do Puma, o fibreiro que vai reformar o meu tubarão 76, quebrou o pé e vai ficar 60 dias sem trabalhar. Resumo: como viajamos de férias, Lu e eu, no final de junho, não vai dar tempo de restaurar o puminha até lá. Vai ter que ficar para a volta. Paciência.

[Ouvindo: She Loves You - The Beatles - Past Masters Vol 1]

20 de fevereiro de 2008

Dia importante

Hoje é um dia essencial na minha vida. Há (censurado) anos, nascia uma gauchinha morena. que Yeda e Adalgiso batizaram de Luciana. Certamente era um bebê bochechudo. Se não era, adquiriu essa qualidade na vida adulta.

Conheci-a quando, ainda estudante de engenharia elétrica, resolvi me meter no movimento estudantil da UFSC. O diretório central mantinha uma rádio pirata no campus e começamos a trabalhar juntos na emissora.

O primeiro contato foi coisa digna de Calvin e Susie. Numa reunião da rádio, Luciana, um pouco ressabiada com o risco de uma batida policial, perguntou o que faria com o transmissor num caso desses. A minha resposta foi 100% lageana: "Enfia na boca". Um lorde, como sempre.

Ainda assim, fomos juntos a uma festa do curso de jornalismo no Clube Penhasco (os mais velhos vão lembrar do lugar). Ela já estava na terceira fase, mas ainda assim deu uma chance pro engenheiro calouro. Felizmente.

Daquela noite em diante, 18 de maio de 1990, não vivemos mais um sem o outro. O período mais longo sem se ver foi quando o pai dela ficou doente e os planos de nos encontrarmos em Viena foram frustrados. Ficamos 26 dias falando apenas pelo telefone.

Hoje ela não vai ganhar presente nenhum. Não escolheu ainda o que quer. São tantas coisas. Pena que não posso bancar todas. Ela merece. Merece até muito mais. Merece muito mais do que eu. Mas, magnânima, escolheu um piá narigudo pra fazer feliz.

[Ouvindo: No Ordinary Love - Sade - The Best Of Sade]

19 de fevereiro de 2008

Férias

Pois é, meus caros leitores: estou em férias. Oito dias de folga para resolver pequenos problemas domésticos - tevê da cozinha que pifou, fogão que precisa de regulagem, lâmpadas que precisam ser trocadas, pequenos reparos no barco e no Puma. Mas, acima de tudo, uma semana para cuidar da minha mãe, que ontem fez uma pequena cirurgia no joelho. Estarei com meus velhos aqui em casa nesse período de recuperação da Berna.

14 de fevereiro de 2008

Platinado

Três semanas atrás, meu Puma resolveu parar de funcionar. Até levei o felino numa oficina aqui perto de casa, mas não resolveram. Não é todo mundo que mexe em carro antigo. O problema é que o mecânico que costuma mexer nele estava em férias, oficina fechada até depois do Carnaval..

Ontem consegui chamar um guincho e mandar o carro até Rui, o mecânico. O problema era com a ignição eletrônica. Uma modernidade adaptada ao antigo motor boxer de quatro cilindros opostos e dois carburadores que equipa o carrinho. Tá bom, é um motor de Brasília com pequenas modificações.

Bem, o fato é que pedi ao Rui que tirasse a ignição eletrônica e substituísse toda a distribuição pelo sistema original, de platinado e condensador. Foi barato e o carro tá rodando macio. Além disso, o fato da distribuição ser igual à original garante uns pontinhos a mais na vistoria para a placa preta.

[Ouvindo: Heroes - David Bowie - Heroes]

10 de fevereiro de 2008

Fim de semana comprido

O dia de todo mundo tem 24 horas. Um final de semana, portanto, 48 horas. Muitos finais de semana são desperdiçados. Este que está acabando daqui a duas horas, eu não desperdicei.

No sábado pela manhã fui ao RCFL, o clube de aeromodelismo de Florianópolis. Estou fazendo aulas de aeromodelismo para poder usar o presente de Natal que a Luciana me deu: um Cessna 182 radiocontrolado.

Ao meio-dia, almoço com os amigos Paulo e Renata, no Recanto das Sereias, em Itapema. Estava indo correr com o pessoal do trabalho no nosso campeonato interno de kart. Fiquei em terceiro nessa corrida. Melhor que o quarto lugar da bateria passada.

À noite, um cineminha com a Berna e a Lu para assistir Sweeney Todd. Recomendo. É um musical de humor negro, negríssimo. Mas dirigido pelo Tim Burton e estrelado por Johnny Depp e Helena Bonham Carter. E Tim Burton combinado com esses dois sempre vale a pena.

Domingão meio nublado, com pouco vento. Ainda assim pulei cedo, enchi o galão de gasolina e toquei pra Marina. Com o Carlito como proeiro, saí pra velejar no Gostosa. Erguemos os panos pouco depois das 10 horas e só fomos conseguir um ventinho às 12h45min. Mas valeu. Em menos de uma hora fomos da ilha de Ratones Pequeno até a Costeira da Armação, em Governador Celso Ramos. Vai ser fácil chegar até a Fazenda da Armação ou Tinguá.

Final de tarde do domingo, papo com os amigos na Lagoa da Conceição, tomando um Smoothie no Jungle Juice. O único porém é que, como não almocei por ter passado a manhã e parte da tarde no mar, enchi a pança de comida. Tudo bem: amanhã eu capricho nas pedaladas e fico mais leve. Pelo menos a consciência.

8 de fevereiro de 2008

Blogosfera

Essa história de reativar o blog fez com que eu voltasse à navegar em blogs sem interesse puramente profissional. Por conta disso, coloquei mais uns links aí ao lado. Um deles é o do meu irmão, Giuliano, falando sobre as viagens dele à Bósnia. Acho que é o país preferido dele, que mora em Viena, Áustria, há mais de oito anos.

Outro blog vocês notaram em função de uns posts abaixo. É o da Anacris, que eu já conhecia mas tinha perdido o endereço (um dos contras de não guardar o histórico do MSN). Vale a leitura.

Certamente a lista vai crescer à medida em que eu voltar a navegar com mais vontade pela blogosfera.

[Ouvindo: Jimmy Jazz - The Clash - London Calling]

7 de fevereiro de 2008

Tem que ouvir: Led Zeppelin IV

Folder Tá bom, tá bom... Há controvérsias sobre o melhor disco do Led Zeppelin. Tem gente que gosta mais do Led II. Quem curte performances ao vivo, vai dizer que é o The Song Remains The Same. Pois pra mim é o Led IV, que muita gente identifica como "o do velho". Ontem saí para pedalar e toquei esse disco no telefone. Perfeito! Começa com o maior gás, com Black Dog e Rock And Roll. Exatamente como eu pedalando: começo mandando ver, ultrapassando todo mundo até entrar num astral mais Stairway to Heaven. O disco casa perfeitamente com a pedalada.

Tá, mas não é isso que faz dele um "tem que ouvir". São as canções geniais e que todo mundo já ouviu pelo menos uma vez na vida. Stairway to Heaven, claro, é o carro-chefe. Se o cara já sentou numa rodinha de violão, ouviu pelo menos a introdução. Eu ouvi milhares de vezes, quando era garoto.

Troquei esse disco por um do Kiss com um vizinho, lá por 1983, 1984. Passei tardes e tardes sentado em frente ao aparelho de som, tocando o comecinho de Stairway to Heaven à exaustão, tentando tirar de ouvido. Era uma época anterior às tablaturas na internet. O resultado é que todo mundo dessa época toca Stairway to Heaven de um jeito diferente. A minha, obviamente, é a mais fiel. Na real, qualquer dia eu ensino o Jimmy Page a tocá-la. Reza a lenda que ele não acerta mais o solo.

Além do hino dos violeiros, o disco tem Rock And Roll, que começa com a bateria mais endemonhada que existe. Uma bateção violenta no chimbal, meio aberto. Coisa de espantar os pais, mesmo. E uma guitarra irada pra caramba. Antes disso, o riff fantástico de Black Dog. Não tem como não se esmerar no air guitar ouvindo essas duas canções.

Mas não é só em escores conhecidos que o disco se sustenta. Going to California, a penúltima faixa, é a música mais bonita do Led, empatada com Tangerine. E depois vem outra grande canção: When the Levee Breaks. Esse é o set do álbum:

  1. Black Dog (Page/Plant/Jones)
  2. Rock and Roll (Page/Plant/Jones/Bonham)
  3. The Battle Of Evermore (Page/Plant)
  4. Stairway to Heaven (Page/Plant)
  5. Misty Mountain Hop (Page/Plant/Jones)
  6. Four Sticks (Page/Plant)
  7. Going To California (Page/Plant)
  8. When The Levee Breaks (Page/Plant/Jones/Bonham/Memphis Minnie)

Uma coisa interessante desse álbum de 1971 (mesmo ano do meu nascimento, por sinal) é que o disco não tem nome. Nos catálogos da Atlantic, as menções são para Quatro Símbolos (a capa mostra quatro ícones meio esotéricos), o Quarto Álbum ou ainda ZoSo (também por causa dos símbolos estranhos).

Para baixar é aquele esquema: tendo um cliente torrent instalado no computador, clique no link abaixo e mande abrir o arquivo.

Led_Zeppelin_IV

[Ouvindo: Misty Mountain Hop - Led Zeppelin - Led Zeppelin IV]

6 de fevereiro de 2008

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rss Por sugestão da Anacris, do Suzanne Valadon, incluí um feed de RSS ao Casa Proença. A coisa funciona assim: você coloca o endereço do feed no seu leitor de RSS e a cada atualização do blog, um aviso aparece na sua tela. Como eu posto muito de vez em quando, o leitor fica poupado de visitas em que não encontra nada de novo para ler. O link tá no pé da página e também na coluna da direita, associado ao ícone do RSS. Valeu, Ana.

[Ouvindo: Pra Dizer Adeus - Titãs - Televisão]