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18 de março de 2010

iPhone

Com as devidas reverências à criatividade dos colegas da Talk Brasília

Tava lá o corpo estendido no chão. Bem, não era um corpo, mas um iPhone. E o chão era o asfalto quente da W3, perto do Setor Hoteleiro Norte, em Brasília. Reginaldo desceu do carro, parado no semáforo, apanhou o iPhone e soprou a poeira vermelha do LCD. Correu para sentar-se ao volante do Renault Sandero antes que o sinal abrisse. Largou o telefone da Apple no banco do carona e seguiu para o trabalho como fazia todo dia.

Enquanto esperava o elevador que o levaria da garagem subterrânea ao segundo andar, começou a mexer no aparelho. Aparentemente, ele ligava, mas a tela estava apagada. Era possível ouvir os ruídos de ligar, desligar, mudar tela. Mas, pesquisar por um número, pelo nome do dono era impossível.

“OK, sem problemas. Assim que chegar ao escritório eu sincronizo ele com meu computador e recupero os dados”. Reginaldo tinha esperança de encontrar o dono do aparelho, solidário que era aos parceiros admiradores dos equipamentos produzidos pela Apple.

Não que Reginaldo fosse daqueles seguidores fanáticos da empresa californiana. Ele não era da Steve Jobs Church of Redemption. Longe disso. Gostava do iPhone, dos Macs, do iPod. Mas não chegaria a tatuar uma maçã no braço. Respeitava os fãs, mas procurava manter distância dos exageros.

Ao acessar o telefone, descobriu que pertencia a uma garota. Havia várias fotos dela no aparelho. Idade entre 20 e 25 anos, loura, olhos entre azuis e verdes, rosto redondo e simétrico, corpo muito bonito – uma sequência de auto-retratos dela vestindo um biquíni preto, tiradas a bordo de uma lancha no que parecia ser o lago Paranoá, davam a dica.

“Tá aí alguém que vale procurar para devolver o telefone”, pensou Reginaldo. A colega de trabalho, Katilene, espiou as fotos e sorrindo brincou:

- Namorada nova?

- Não, essas fotos estavam num iPhone que encontrei na rua. A tela não funciona, mas de resto o aparelho tá intacto. Essa deve ser a dona.

- Bonita, hein?

- É, bastante. Vou ver se acho ela para devolver o aparelho. O mais louco é que tava caído no meio da W3.

Nesse momento, Felício, que já havia ouvido parte da conversa, entra no papo.

- Cara, ouvi dizer que é muito comum em sequestros-relâmpago os bandidos jogarem o celular do sequestrado para fora do carro.

- Não pode. Será que a menina foi sequestrada? – Pergunta-se em voz alta Reginaldo.

- É uma possibilidade – arrisca Katilene.

Depois de discutir um tanto, resolvem que o melhor é ligar para um número de telefone associado a um dos compromissos na agenda do telefone, uma consulta ao dentista.

- Alô, eu encontrei um telefone e diz na agenda que o dono ou dona teria uma consulta agora com o dentista que atende nesse número. Sim, arrã. Certo. Não sei o nome. É, pode ser. Você a conhece? Isso, loura, olhos claros… Arrã. Se ela ligar ou aparecer, você pode pedir que ligue para o fone 5555-0550? Obrigado.

- E aí? – Perguntou, interessadíssimo, Felício.

Reginaldo encheu os ouvidos atentos de Felício e Katilene com informação. Sim, o telefone era da lourinha das fotos. O nome dela era Paula e não havia comparecido à consulta com o dentista. A secretária do consultório ligara há pouco para a casa dela e a mãe da menina falou que ela saiu para a consulta nas primeiras horas da manhã.

Os três se olharam e pensaram seriamente que sim, a garota havia sido sequestrada. Preocupado, Reginaldo pegou o telefone e ligou para João, um amigo investigador da Polícia Civil do DF. Depois de trocarem cortesias, João ouviu a história e prometeu fazer uma breve investigação.

Só depois do almoço, lá pelas duas da tarde é que Reginaldo teve notícias de João. Alguns telefonemas, uma visita ao Ministério da Fazenda, onde Paula estagiava todos os dias pela manhã, e uma conversa com os pais da menina fizeram João acreditar na hipótese de sequestro. Comovido com a preocupação da mãe e meio sem saber porque o amigo estava tão preocupado com uma desconhecida, João acionou um alerta para o carro da garota.

Não demorou muito para que a Polícia Militar localizasse o carro estacionado na entrada de uma casa em Sobradinho, uma das cidades-satélites de Brasília. Quando João ligou perguntando se Reginaldo não gostaria de acompanhá-lo, com o intuito de ajudar a reconhecer a garota caso ela estivesse na casa, não houve debate.

- Sabe como é, complicado de pedir aos pais. A coisa pode tomar um rumo mais emocional e nos causar problemas.

Sentados num carro sem identificação, à paisana e com as ruas próxima fechadas por viaturas da PM, Reginaldo, João e um segundo policial esperaram algum movimento na casa. Não se passou mais de uma hora quando dois homens, ainda dois garotos, de pouco mais de 18 anos, saíram da casa segurando Paula pelos braços. Reginaldo reconheceu-a na hora.

- É ela – foi a deixa para os dois policiais falarem alguns códigos pelo rádio e saltarem do carro rapidamente, prendendo e desarmando os garotos ainda quando entravam no carro.

Uma prisão tranquila, sem que os sequestradores tivessem tempo de disparar um único tiro ou machucar a refém.

A menina, assim que foi libertada, disparou a chorar convulsivamente. João aproximou-se da garota e contou a história de como haviam descoberto seu cativeiro e o que havia levado a polícia a procurá-la.

- Esse cara é o teu herói, Paula – disse o policial, apontando para Reginaldo.

Ela abraçou forte o rapaz. Ele a abraçou de volta. Reginaldo tirou o telefone do bolso com uma das mãos e entregou a menina, que ainda chorava com o rosto colado no seu ombro, buscando segurança e conforto. Ela esboçou um sorriso e voltou a recostar o rosto no ombro do rapaz. E descobriu ali segurança e conforto. E ele, alguém para confortar e dar segurança. Reginaldo pensou: “De vezem quando, vale a pena fazer uma boa ação”.

29 de janeiro de 2010

God hides on subway lines

There I am, looking to the rails from the platform, considering if I’d ever jump in front of a running train. Thinking if the thousand volts on the third rail might make the world of stocks, bonds, foreign currency disappear forever. It probably would, but I got a Playstation and a cozy armchair waiting for me at home. It’s not worth the jump.

But a small girl, looking like Russian, is staring at the tracks, just like I was. Now, she’s the focus of my eyes. You know the type: blonde as a canary, legs long as the Empire State Building, Eyes blue as a summer sky in the Hamptons. And Russian, of course. She resembles one of those tennis players whose name sound like a vodka brand.

And she’s staring at the tracks with a crazy look in the deep blue eyes. I’m starting to worry. Is she thinking suicide thoughts? Did I have that same look a few minutes ago? Barely have time to do anything and the Q train approaches. The whistle of metal against metal and the wind on the platform.

She takes one step forward. I know. And she looks at me, just a glance. And she knows I know. We both know and are in it together. I jump towards her and my body is so much stronger than hers. She is leaning forward the train and an old lady screams “Oh my God”. A young latino couple shouts “fuck” in unison.

Her body and mine, now one single human being, barely miss the train. We just bump in the lateral and the engineer hits the breaks as fast as he cans. When the train stops, we’re bruised, we’re bleeding, but we’re alive. People aorund scream, some even cry. I do nothing like that. Neither does she. We just look at each other. And I ask her why. In a Russian accent, she simply says: “’Cos god hides on subway lines”.

2 de dezembro de 2009

18 + 10

Já não é qualquer mulher que me faz virar o pescoço. Sabe, aquela olhadinha? Todo homem faz isso, seu pai faz também, ou fez, pelo menos. Quando se é garoto, basta a mulher não ser um dragão que o cara vira o poescoço para olhar a bunda. É, a bunda. Não viramos o pescoço para apreciar a sedosidade do cabelo, a curva da nuca ou a simetria dos ombros. Olha-se a bunda. E quando se é guri, mesmo que a mulher seja feia, sempre há a esperança de que a bunda compense.

Mas vamos lá: quando Patrícia passou por mim, a caminho de seu lugar na poltrona 18 D, eu vi os rostos dos caras à minha frente virando. Patrícia era alta, de pele clara e cabelos escuros e cacheados. Realmente chamava atença. A boca tinha uma forma que lembrava um coraçãozinho, uma coisa meio de desenho japonês, meio mangá. O nariz era redondinho e delicado, separando simétrica e perfeitamente dois olhos castanhos muito expressivos. Já disse que ela era alta? Bem, era um mulherão.

Vinha pro seu lugar causando torcidas de pescoço. E eu olhei também. Não me contive e olhei. Mas não precisei virar o pescoço. Olhei direto no rosto, nos olhos. Como se, de tudo aquilo que era Patrícia, só me interessasse pelos olhos. E ela olhou de volta, do mesmo jeito. Quando passou pela fila 10, onde eu me sentava, virou o pescoço. E eu virei também, prolongando a encarada. Não lembro quem desviou os olhos primeiro. Eu diria que foi ela. Mas acho que vale perguntar para ela também.

Depois do tempo em São Paulo é bom, com temperatura em torno dos 24 graus, as saídas estão localizadas sobre as asas e nas partes traseira e dianteira da aeronave, ladies and gentleman turn off your cell phones e todos os etecéteras que acompanham o ritual de vôo, dei mais uma olhada para trás. Ela me procurou com os olhos e nos encontramos por segundos, até sermos interrompidos pela aeromoço, lembrando que Patrícia teria que afivelar o cinto.

Não deu um minuto com os sinais de apertar os cintos apagados e levantei. Disposto a conversar com ela, saber seu nome, que como vocês já sabem, eu descobri. Ao me aproximar da fila 18, ela sorriu e fez sinal apontando para trás, para o fundo do avião. Passei direto e ela levantou logo atrás. Me seguiu por todo o corredor, conseguia sentir seus passos, um metro atrás.

Não entendi nada quando ela me empurrou para dentro do banheiro e me beijou, sentando com as pernas abertas e de frente para mim, me obrigando a sentar na privada. Fiquei ainda mais atônito quando o beijo se prolongou para o pescoço e a mão embrenhou-se por dentro da camisa. Acho que o resto não vale a pena descrever. É gráfico demais e pode ter crianças lendo. Mas dá pra dizer o seguinte: seu nome era Patrícia e hoje deita ao meu lado todas as noites.

5 de janeiro de 2009

Cinza

Quando a neblina chegou, o mar era seu único companheiro por dois dias. O cinza úmido engoliu o barco, adensando-se pouco a pouco. Para João, era só mais uma neblina forte, uma das muitas que ele havia pego nas suas aventuras. Vivia de navegar. Transportar veleiros de uma marina a outra. Dessa vez, era um belo barco. Dava gosto de navegar. Um Benetau Océanis 400. Um veleiro oceânico de 40 pés, fabricado em 1996, em estado de novo. Seu cliente havia comprado o barco na Argentina e contratado João para levá-lo a Florianópolis.

Cinco dias antes da neblina o engolir, ainda no Iate Clube de Puerto Madero, João fez uma revisão geral no Da Vina, o nome atual do veleiro. Ergueu o barco no travel lift, fez uma cuidadosa inspeção do casco, leme, hélice e quilha. Por dentro, observou qualquer sinal de osmose, de infiltração ou rachadura e deu uma geral no motor. Não queria ser pego de surpresa no caminho até Santa Catarina.

Bem equipado, o Da Vina contava com um completo sistema de navegação, com radar, sonda, GPS, piloto automático e anemômetro. Dois de cada um. O antigo dono era quase tão paranóico com segurança quanto João. Certamente devia ter feito longas travessias com o barco. Era a única razão para investir tanto em equipamentos.

Depois de se certificar que o veleiro suportaria bem a viagem, João tratou de torná-la confortável. Com o dinheiro que seu cliente lhe deu para despesas, comprou duas garrafas de um bom Malbec argentino, provisões secas e frescas e voltou para o hotel. Ia dormir bem essa noite, para estar atento durante toda a saída do Prata. Sonhou com tango e tangas. Em breve estaria em casa de novo, tomando sol na praia e com bons 30 mil reais a mais no bolso.

No dia seguinte, ao raiar do sol, João e Da Vina já estavam velejando. Os panos totalmente içados, caçados, aproveitando o pouco vento na saída do iate clube. Esperava mais vento ao seguir o curso do Prata rumo ao Atlântico. Menos de duas horas depois de sair, a velejada começou a ficar interessante: ventos de 30 a 35 nós e um bom rendimento do barco. Claro, era um Benetau, bem construído, bem equipado. Um barco como João teria um dia, tinha certeza.

A roda de leme respondia bem, as velas trimadas e as catracas ao alcance do timoneiro. Nesta travessia era essencial saber o papel de cada cabo, de cada moitão, de cada manilha. Sozinho, João não podia errar. E não iria. Para começar, nunca foi de arriscar. Correr regatas não era o seu forte. Não gostava de estressar os barcos, levá-los ao limite. E essa característica era justamente o que os clientes gostavam tanto em João. Contratá-lo para transportar um barco era seguro. Ele não ia exagerar, não ia "dar um pau" no barco.

Depois de quase 14 horas velejando, o Da Vina atracou no Yatch Club Uruguayo, em Puerto de Buceo, em Montevideo. João dormiu no barco mesmo, cansado da longa travessia entre as capitais. Tinha muita água pela frente, mas estava contente. Sonhou com carros velozes, bons vinhos e belas mulheres.

Sorria ao acordar, já com o sol alto no horizonte. Estava tarde para vencer mais uma etapa de sua viagem, mas não se importou com isso. Fez uma boa refeição, se despediu dos marinheiros uruguaios que conhecera e partiu novamente. Faltava pouco para sentir o cheiro de maresia.

Quando finalmente passou pela Isla de las Flores, três horas depois de partir, sentiu a brisa marinha no rosto, acompanhada de uma sensação de estar em casa, no seu elemento. Havia uma neblina leve, típica da região. Para ganhar velocidade, João moveu a roda do leme, ajustando o curso para Este-nordeste. As velas encheram mais e o barco começou a se comportar como o excelente cruzeirista que era, enterrando a proa nas ondas mais altas, singrando até as vagas mais violentas.

Com o piloto automático ajustado, João entrou na cabine para preparar algo para comer e ler um pouco. Descansar da roda do leme, do sal, do sol e do sereno. Sentou-se, comeu com calma e pensou em quão fácil seria a travessia. Mais um dia inteiro de velejada e estaria no Brasil. Ficaria feliz em ver o Farol da Barra do Chuí, o primeiro sinal brasileiro visível do mar para quem vem do Sul.

A noite daquele dia foi tranquila. Bons ventos, o barco quase que o tempo todo em piloto automático, nenhum sinal de risco no radar - João tinha muito receio de encontrar um navio grande na sua rota e a possibilidade de colisão, ainda que ínfima, era assustadora.

O dia seguinte teve um pouco de neblina ao amanhecer, que logo se dissipou. Da roda do leme, foi possível ver baleias e um cardume de pinguins. Ao longe, avistava a bela paisagem do nordeste uruguaio. O Farol de La Paloma, já bem próximo à fronteira com o Brasil. Mas os ventos amainaram e o Benetau perdeu rendimento. O Nordeste que tocava o barco numa orça apertada, obrigando João a cambar constantemente se transformou num Sul razoavelmente fraco. Tão fraco que nem parecia Sul. Coisas do aquecimento global, pensou o marinheiro.

João caminhou até a proa, armou o balão assimétrico, recolhendo a genôa no enrolador. Agora o barco era um ponto vermelho e laranja para quem olhasse de terra. Toda atenção era necessária. A grande área vélica da vela de proa poderia causar um acidente numa rajada mais forte ou numa alteração brusca de rumo. João seguiu assim, cansado de tanta concentração, até começar a entardecer. O pôr-do-sol veio encontrá-lo na proa do Da Vina, recolhendo o balão e desenrolando a genôa. Agora, durante a noite, o piloto automático iria tocar o barco. Melhor descansar.

No cockpit, um piquenique: uma garrafa de Malbec, torradas com caviar. Sevruga, claro. Cortesia do cliente, que concordara em bancar as despesas de alimentação da viagem. Depois de três taças, João sentia o efeito entorpecedor do vinho argentino, mas ainda assim reagiu à nova mudança na direção do vento. O Sul fraco virou um Nordeste fraco. Pequeno ajuste no rumo, na trimagem das velas e o barco estava pronto para seguir sozinho.

Seguiu, sozinho, rumo à neblina. João sentiu a umidade quando se despia para dormir. Uma neblina forte, estranha. Fechando a cabine hermética, João se separou da umidade e dormiu um sono inquieto. Sonhou com escuridão, com brigas e que caia do céu no meio de nuvens que não acabavam mais.

Acordou cansado e abriu a gaiúta e a porta para o cockpit. A neblina estava forte lá fora e a umidade invadiu a cabine. Era dia, mas tudo estava tão cinza que podia ser noite. João podia ver piscar as luzes de navegação no meio da umidade cinza. Mais nada. Não enxergava o Farol de Chuí, embora o GPS indicasse que estava bem próximo dele.

João seguiu navegando pelo GPS, torcendo para a neblina dissipar o suficiente para enxergar Santa Vitória do Palmar, a Praia do Hermenegildo, alguma coisa que fosse familiar. Mas nada. A neblina seguia ficando mais densa, mais densa, mais cinza, mais úmida.

Pelo seu relógio, já seria meio-dia, mas o disco do sol não vencia a neblina. João não vencia a neblina, por mais que apertasse os olhos, franzisse o cenho para enxerga um pouco mais que os enroladores na proa. No relógio, o tempo foi passando devagar. No oceano, mais devagar ainda, numa calmaria irritante.

Mas o velejador sabia se controlar. Não era a primeira vez em que ficava sozinho e entediado no mar. Bastava não brigar com o mar. Ninguém ganha essa briga. Entrou na cabine, pegou um livro e começou a ler, tentando despreocupar-se. Contudo, de vez em quando, olhava para o GPS e o radar. O barco avançava lentamente. Lento demais para o seu tamanho. Lento demais para os ventos que normalmente sopram naquela região.

O dia passou devagar, mais devagar do que o avanço do barco no meio da densa neblina. João foi dormir preocupado. Era seu terceiro dia no mar, o quarto velejando e mal havia chegado ao Brasil. Se o vento tivesse ajudado, já estaria passando a divisa entre os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, na Barra do Mampituba. Estava longe, ainda.

Depois de um sono nada reparador, João acordou mais cansado do que o dia anterior. Abriu a porta da cabine para o cockpit e a neblina invadiu o interior do barco, como se fosse uma entidade com vida própria. Tudo ficou acinzentado aos olhos de João. As telas dos eletrônicos, o inox do fogão, a sua própria pele. A umidade forte demais incomodava os olhos, como se João estivesse tentando mergulhar sem cerrar as pálpebras.

João podia sentir a neblina. Entendeu a velha hipérbole: aquela era uma neblina que se podia cortar com uma faca. E o Benetau começou a cortá-la mais e mais. O vento começou a soprar com mais força, o suficiente para João ouvir o barulho do casco singrando o mar. O suficiente para o barco adernar à sotavento e o velejador sentir o caturro.

Em vez de animar-se, João preocupou-se. Não havia modo de enxergar à frente. Aproximou o rosto dos eletrônicos. Sabia que eles funcionavam pelo calor que o LCD emitia, mas não conseguia ver nada. Nem colando os olhos no display era possível enxergar algo. Nada era visível agora. Só um cinza que cobria tudo. Tudo mesmo.

A impressão que João tinha era de que havia ficado cego. Tateou pelo barco, procurando as catracas. Encontrou a que julgava ser do grande e seguiu o cabo até o stopper para soltar a vela. Recolheu o pano completamente, e, sempre tateando, fechou a capa. Fez o mesmo com a genôa. Estava sem velas. Não podia ficar assim, à deriva. A neblina estava deixando ele nervoso. Jamais, em todos os seus anos de vela, tinha feito isso: baixado todas as velas sem ligar o motor. Felizmente, depois da segunda tentativa, o ronco e o cheiro do diesel encheram o ar.

Mas, ir para onde? Não tinha como se orientar, como seguir navegando. João tinha certeza de que os eletrônicos estavam em modo de alarme. Ou seja: se algum obstáculo aparecesse no radar, um sinal sonoro o avisaria. Se a profundidade chegasse próxima a três metros, também soaria um alarme. Com o motor na velocidade mínima, João continuou avançando. Muito, mas muito devagar. Cortando o cinza.

Seguiu nessa faina, cego, por sabe-se lá quantas horas. Não tinha como enxergar o relógio e perdeu a conta dos bips que o Omega dava nas horas cheias e meias-horas. Ligou todas as luzes. Caso fosse noite, seria mais fácil de um navio ou outro barco notá-lo assim. Tudo o que as luzes faziam era colorir um pouco o cinza. De azul, de verde, de vermelho, de amarelo. Dependendo do tipo da lâmpada.

Ele nunca havia visto uma neblina assim tão densa. Ninguém havia visto uma neblina assim. João só sentia o barulho do motor e do casco, o cheiro do diesel e o tato de suas mãos na roda de leme. Não via nada, não ouvia outra coisa. Manteve o barco no rumo com um cabo amarrado num dos raios do timão e foi dormir. Ou tentar dormir. Passou a noite em claro. Mesmo com os olhos fechados, o cinza úmido lhe perseguia.

Não conseguiu dormir, mas manteve-se no camarote de popa por quatro horas, descansando o corpo. Precisaria do descanso quando saísse da neblina. Agora, João contava os bips do relógio. Oito bips depois de ter deitado, levantou-se para o cinza lá fora. Nenhuma mudança na situação.

Ao longo do dia, ou da noite, não sabia ao certo, os ruídos foram ficando mais fracos. Como se a neblina engolisse até mesmo os sons. O ronco do motor foi ficando fraco, a ponto de João se perguntar se ele estava ligado. Uma leve vibração no cockpit indicava que sim. O barulho do casco nas ondas também foi diminuindo de intensidade até sumir completamente. João não via e não ouvia.

Ele se perguntava o que estava acontecendo. Se estava louco, doente, se fora acometido por cegueira e surdez inexplicáveis. Se a neblina não tivesse chegado devagar, acreditaria nessa hipótese. Mas não. O mundo não era negro e sem luz, como o mundo dos cegos. Era cinza e úmido. E quieto, assustadoramente quieto.

O silêncio e a cegueira cinza foram tomando conta de tudo à volta de João. Mesmo o tato nas coisas era embotado pela umidade cinza. João começou a bater-se nas anteparas, a tropeçar nos cabos. Sabia que o diesel não duraria para sempre. Se estivesse avançando a meio nó, já deveria estar em Florianópolis, caso tivesse tomado o rumo correto. Mas aquela neblina tão densa parecia acompanhar o barco onde quer que fosse. João tentou acelerar ao máximo o motor e seguiu assim por dois dias, tentando escapar da umidade gris. Sem sucesso.

Depois de sete dias sem dormir, sem comer direito por não conseguir encontrar as coisas, sem ver, ouvir e sem poder sequer tatear, João encontrou uma solução: amarraria uma bóia na cintura e pularia ao mar, para, dentro da água, abrir os olhos e ver alguma coisa ou ouvir o barulho do motor, sentir a água fria no seu corpo. Ele precisava disso, de ter a certeza de havia algum sentido funcionando. Tato, visão, audição. Qualquer deles servia.

João colocou o plano em execução. Arrastou-se pelo cockpit até o lugar onde achava que haveria uma bóia circular de resgate. Não conseguiu sentir nada, mas agarrou um cabo ou algo que parecia cilíndrico e maleável e seguiu até a borda do barco. Seu corpo chocou-se contra o que pareceu ser o guarda-mancebo. Passou um pé e depois o outro e pulou. Sentiu um choque leve nos pés e depois no resto do corpo. Abriu bem os olhos, mas não havia nada ali. Nenhum ruído, nenhuma cor senão o cinza. A umidade era maior, era verdade. Mas era como se ainda estivesse no meio da neblina, e não imerso no mar. Abriu a boca e sentiu um leve gosto de salgado. Mas era cinza. Tudo cinza.

João largou o cabo que tinha nas mãos e deixou-se afundar devagar. Primeiro abriu bem a boca e tentou respirar. O cinza úmido e agüado entrou boca adentro, invadiu a garganta e a traquéia, encheu os pulmões. Foi ficando mais e mais cinza. Por dentro e por fora. Agora, tudo era cinza. Ou quase tudo. As sinapses e os neurônios, antes de desligarem por falta de ar, se rebelaram contra o cinza. E dispararam informações para todos os lados. Formas, sensações, cores. Sonhos vermelhos, verdes, azuis, amarelos. Calor, frio, choques elétricos, cheiros e sons. Tudo ao mesmo tempo. Afundando no meio do cinza sem fim, João sorriu um sorriso colorido e morreu feliz.

[Ouvindo: White Unicorn - Wolfmother - Wolfmother].

27 de novembro de 2008

Mel e amêndoas

Nunca fui grande fã de mel. Amêndoas, até gosto. Mas a combinação dos dois em Julie é irresistível. Olhos de amêndoa, cabelo de mel. Para ficar ainda mais deliciosa, a pele da barriga é a de um pêssego maduro.

Conheci-a num desses lugares onde não se conhece ninguém, numa estação de metrô, numa fila de cinema, num cubículo de um setor onde não trabalho. Botei os olhos nela e pensei: taí uma pessoa interessante.

Um sorriso pra ela, um sorriso pra mim. Foi só o que precisou. Oi, meu nome é Jim. Oi, meu nome é Julie. Blá-blá-blá e deu. Se era para haver uma conexão, era ali que teria que nascer. E nasceu. E cresceu devagarinho, um, dois, cinco dias depois.

Primeiro um beijo tímido, um roçar de pele, roupas de verão. Depois, um beijo sôfrego, esfregar de sexos, nudez e suor. No dia seguinte, nenhuma palavra. Nada de e-mail, MSN ou Orkut. Telefone fora da área. Nem um sinal. Só uma saudade absurda de mel e amêndoas.

[Ouvindo: Stranger Things Have Happened - Foo Fighters - Echoes, Silence, Patience and Grace]

4 de novembro de 2008

Aeromoça estressada

Atenção bando de filhos da puta: mantenham seu rabos nos bancos e a porra dos cintos afivelados até a completa parada da aeronave. Tenham cuidado ao pegarem suas tralhas no compartimento superior porque a cacalhada pode ter bagunçado durante o vôo. Não esqueçam de porra nenhuma que vocês trouxeram a bordo, inclusive a desgraça desse telefone celular que vocês insistem em manter ligado.

Atention mother fuckers: keep your fat asses in your seats and the fucking seatbelts on until the aircraft comes to a complete stop. Be careful while collecting your junk from the overhead compartment because it could got all screwed up during the flight. Don't forget any shit you brought on board, including the stupid cell phone you refuse to turn off.

15 de outubro de 2008

Difícil

Ela sorria não sorrindo e ele brincava não brincando. Eram assim, meio-meio. Não sabiam ao certo o que estavam fazendo. Ele, jovem, até se entendia que não soubesse direito o que se passava. Já ela, vivida, casada, bem resolvida, estava perdida porque queria estar. Queria, a bem da verdade, se perder nele, em sua juventude.

Mas ele não queria tanto. Não era homem de ser perder por aí, especialmente por uma coroa. Enxuta, inteligente, charmosa, mas acima de tudo uma coroa. O lance dele era ser solteiro, jogar um charminho, brincar com elas como um gato brinca com novelos de lã.

Saíram para brincar um dia. Ela falou algo lisonjeiro e ele desviou.

- Tu é muito querida.

- Querida? Tu vive me dizendo isso. Eu sou mais que querida. Mereço mais, não acha?

- É um jeito de sair pela tangente, de contornar um elogio que não sei como reagir - desconversou, conversando.

- Você é mesmo meio esquivo.

- Esquivo como?

- Às vezes sento colada em você e nada. Nem um roçar mais malicioso, nada.

- Eu sei. Sou meio indelicado nesse ponto, não correspondo.

- É, tu tá é mandando uma mensagem pra mim: não flerta mais comigo, sua coroa.

- Não é isso. Nem considero flerte.

- Mas é.

A partir daí, o papo foi ficando mais sério. E ele se recusava a ceder. Ela, vivida, experiente, não entendia como é que poderia mandar sinais mais claros. E ele fazia que não entendia.

Para quem, como eu, olhava de fora, chegava a ser cômico. E um pouco triste. Fiquei um tempo acompanhando o desenrolar da situação, até que o bar foi enchendo, o barulho encobrindo as conversas e me restou apenas a linguagem corporal para acompanhar.

Ele se fazendo de difícil, ela não entendendo quão difícil era. Mas aparentemente, as coisas deram certo. Saíram juntos, meio abraçados - ela enlaçada nele, ele com as mãos nos bolsos. Sorrindo e comentando trivialidades ao passar pela minha mesa. Entraram no mesmo carro trazido pelo manobrista e partiram. Espero que para um final feliz, num motel qualquer numa rodovia próxima.

5 de setembro de 2008

O Processinho (com a licença de Franz K.)

Alguém devia ter difamado Ana P., pois certa manhã, sem que tivesse feito qualquer mal, recebeu a notícia de que seu salário seria descontado em 1%. A notícia veio com o aviso de que pouco poderia ser feito. Era preciso buscar a Repartição para evitar o desconto.

Ana P. não compreendeu na hora as implicações do desconto. Não conhecia a Repartição e não estava familiarizada com os processos, embora fosse letrada e versada, mulher vivida e de perspicácia acima da média.

Ana P. buscou informações, tentou compreender o que todo o processo significava e porque a Repartição tinha que mexer em seu salário. Porque o salário era dela, disso não havia dúvida. Ela trabalhara, ficara com dor nas costas, com a testa marcada por rugas de expressão, perdera compromissos por causa das horas longas no escritório. Merecia o salário. Não 99% dele, mas sua totalidade.

A Repartição, o que havia feito? Os homens de roupa escura, de rostos pesados e semblante raivoso, haviam trabalhado como ela? Ou haviam passado seus dias dedicando-se a tarefas fúteis, a combater batalhas inúteis, a discursas às paredes? Era para isso que queriam 1% de Ana P. Não só de seu salário, mas de seu tempo, Um centésimo da sua vida naquele mês.

Foi com esses pensamentos que a Sra. P. se dirigiu naquele dia à Repartição.

- Bom dia, gostaria de protocolar uma carta solicitando que não seja efetuado o desconto de 1% sobre meu salário.

- Não trabalhamos desta forma - respondeu o homem atrás da mesa.

- É muito simples: tenho aqui duas cópias da minha solicitação. O senhor assina uma, dizendo que recebeu a carta, e fica com a outra cópia, para que não esqueça de não descontar o valor.

- Não assino nada.

- Esse é um padrão usual no recebimento de documentos importantes - retrucou Ana P., que sabia dos meandros da burocracia e das Repartições. Ela havia, um dia, sido uma burocrata.

- Não posso assinar. Não assinamos para ninguém.

- Mas vocês assinaram o recebimento da carta de meus amigos que estiveram aqui ontem.

- Não assinamos, não. E além disso, o seu pedido para que eu assine significa que a senhora não confia em mim. E aqui, nós confiamos nos trabalhadores.

Neste momento, é bom explicar. A Repartição servia, ou deveria servir, para defender os trabalhadores como Ana P. Seu propósito era negociar percentuais, benefícios, vantagens, para que Ana P. e seus colegas fossem felizes e trabalhassem com tranquilidade. Mas nem a Sra. P. nem seus colegas acreditavam que isso acontecesse. As batalhas da Repartição não eram as batalhas deles. Os burocratas lutavam contra forças míticas, como a Alca e a globalização. Desafiavam deuses, como GWBush e FHC. Ana P. e seus colegas queriam coisas simples, como horas-extras, bancos de horas e direito a um plano de saúde. Com psicanalista, claro.

- Você está me chamando de mentiroso - complementou o homem raivoso da Repartição.

- Em momento algum eu disse isso! - alterou-se Ana P. - Tudo o que quero é que você assine a minha carta.~

- Não posso assinar. Não vou assinar.

Por horas, dias e semanas a discussão prosseguiu. Ana P. não soube se havia sido descontada em seu salário. Não viu a sua folha de pagamento, porque estava envolvida em leis e tábuas e mandamentos que pudessem corroborar sua necessidade de que assinassem a carta. Mandava faxes, recebia documentos, lia-os avidamente. Até que foi desanimando e deixou-se entregar como seu parceiro de processo do outro lado do oceano, Joseph K. Quando Ana P. desistiu, no mesmo momento "as mãos de um dos senhores seguraram a garganta de K. enquanto o outro lhe enterrava profundamente no coração a faca e depois a revolvia ali duas vezes".

8 de abril de 2008

Conto com instruções didáticas

"Puta que pariu" foi a primeira frase que veio à cabeça do autor para começar o conto. O importante é ganhar o leitor na primeira frase, com impacto. Então:

– Puta que pariu – exclamou com um sorriso o personagem de nome comum que é para o leitor se identificar mais fácil. João ainda era um gurizote, mas nunca tinha visto mulher tão linda. E ainda mais sorrindo pra ele.

João começou a derreter dentro da camiseta bege escrito "Ratos de Praia", uma marca de surf famosa na época, porque é importante ser preciso para  dar veracidade à história. Além disso, os pequenos detalhes ajudam a definir situação e tempo do conto. Com as costas já empapadas de suor, mais por causa do sorriso da morena alta, de olhos verdes e corpo perfeito do que pelo esforço de jogar pacau com Adroaldo, Lin e Sandro. O nome dos personagens secundários não é tão importante, mas também não precisa exagerar. Um nome estranho basta. O resto tem que ser verossímil.

O bolinho de fichas diminuía ao lado da mesa e nada dela ou da amiga se afastarem. João criou coragem e olhou para a garota, se esforçando para concentrar o foco no rosto, e não no decote ou na pele branca dos seios.

– Cansei de jogar. Vamos tomar um sorvete?

Ele mesmo ficou impressionado com a atitude e o autor também, embora soubesse que esses pequenos clímax são importantes para manter o leitor atento na história.

Mas atento mesmo estava João, mergulhando no verde dos olhos de Priscilla, assim com dois eles. Era de Florianópolis e estava na casa de parentes, passando duas semanas em Balneário Gaivota. Estava gostando, sim, mas o mar era muito bravo e ela pouco ia à praia, dados importantes para se definir a personalidade do personagem e que explicam um pouco o porquê da bancura da pele da garota. É parte do jogo de texto fazer o leitor entender por si as conexões entre uma parte e outra do conto.

– Durante o dia eu prefiro as praias de Floripa, mas a noite aqui é mais legal, mais tranquila – completou a garota, querendo parecer cosmopolita.

"Se ela tá querendo impressionar, é um bom sinal", pensou João, enquanto pagava as duas casquinhas de sorvete. Isso num tempo em que Balneário Gaivota não tinha brigas de rua, não sofria com gangues vindas da região metropolitana de Porto Alegre para atazanar os moradores. Era populada, basicamente, por gente que morava nas cidades próximas e isso já diz bastante sobre a diegese da história.

Os dois subiram a rua sem destino certo, tomando seu sorvete e conversando. Coisas bobas, que fazem todo o sentido quando se é adolescente. João, destro, terminou primeiro a casquinha de chocolate. A mão esquerda de Priscilla, nessa altura já chamada de Pri, deu bobeira e foi engolfada pela mão de João, sem resistência. Num momento assim é que o autor pensa: "Como é que eu termino essa merda de conto? Tenho que dar uma dica de como essa história acaba". Mas os três seguem em frente – João e Priscilla passeando e o autor escrevendo.

Já no final da rua, próximo do bar onde João e os amigos jogavam pacau até agora há pouco, seis parágrafos acima, os dois pararam como que combinados sobre o que fazer. Devagarinho foram aproximando os rostos e se beijaram de leve, nos lábios. Uma, duas, três vezes. Na quarta, as línguas se enrolaram, João sentindo o gelado do sorvete na boca de Priscilla. Encostaram em um muro qualquer e ficaram por ali mesmo por alguns minutos, até que a garota deu a deixa, que, no fundo no fundo, entrega o final do conto:

– Preciso ir pra casa. Minha tia deve estar esperando. Além disso, minha prima ficou sozinha no bar – disse Priscilla (o autor não esqueceu da personagem sem nome que acompanhava a protagonista e que ainda pode ter um papel importante).

– Vou te ver de novo?

– Claro, estou toda noite por aqui, até ir embora.

Priscilla se virou para encontrar a prima e João foi-se faceiro, orgulhoso de si mesmo, ao encontro dos amigos. Contou que ela era de Florianópolis, que era maravilhosa, tinha uns peitinhos lindos, uma bundinha firme, uma boca quente e beijava muito bem. Era perfeita e podia muito bem ser sua namorada. Quem sabe na noite seguinte.

Priscilla foi caminhando para casa da prima comentando a noite. Disse que João era desajeitado com as mãos, suarento, tinha o hálito meio esquisito e uns papos nada a ver.

– Saco, não posso mais vir para esse lado da praia ou esse chato vai grudar no meu pé – completou a menina, a título de estranhamento, que normalmente é o clímax de um conto, o ponto onde a história dá uma virada e surpreende o leitor. "Esse ficou fraco", pensa o autor. "Mas o leitor dará um desconto, afinal não é mole escrever um bom conto em menos de uma hora", completa, olhando para a morena de olhos verdes e pele branca que ressona suavemente ao seu lado na cama.

[Ouvindo: Royal Orleans - Led Zeppelin - Presence]

2 de abril de 2008

No bar

– Olha só, eu não sou desses caras que se derretem por qualquer menina bonitinha.

– Tá bom, vou fazer de conta que acredito – respondeu Júnior, bebericando a Stella Artois gelada.

– Sério, cara! Comigo não tem isso de ficar olhando pros lados e procurando o peitinho mais bonito, a budinha mais redonda, os olhinhos mais azuis. Nina, nina, não, velho! Pra mim, a guria tem que ter substância.

– Tá bom, João. E você, claro, adivinha o quanto de "substância" ela tem, antes de chegar na menina – ironizou o amigo, fazendo o sinal de aspas no ar com os dedos.

– Ah, dá pra saber, sim. Aquela ali, por exemplo, é uma porta. Olha o jeito de ela rir com as amigas. E essas duas do lado, que se tratam de "miguxa". Puta que pariu, sair com uma "miguxa", nem pensar!

– Ih, cara, acho que a loirinha ouviu. Fala baixo, porra!

– Deixa quieto, tenho certeza que é uma dessas que confunde Stephen Hawing com Stephen King, que acha que Italo Calvino é espanhol para italiano careca.

– Não zoa com a gatinha, pô. É bem engraçadinha – retruca Júnior levantando a garrafa e sorrindo para a garota.

– Tu só quer saber de corpo, né? Tudo bem, tu é meio burrão mesmo.

– Pô, não precisa sacanear, cara! Tá, e aquela ali que tá olhando pra nós. Quer dizer, mais pra ti, pelo visto.

– Olha, parece que pode ser uma guria interessante – avalia João.

Ele levanta para ir ao banheiro e avaliar a situação. Na ida, dá um sorriso para a garota, linda nos seus 22 anos de idade. Morena com a pele branca e os olhos levemente esverdeados. Belo corpo, rosto bonito. Jeito meigo. "Dá pra chegar", raciocina João. E chega, na volta do banheiro.

– Oi, tudo bem?

– Tudo – responde a garota com um sorriso.

– Sou o João. Você?

– Adela.

– Nome incomum. Qual a origem?

– É o nome de uma santa da Romênia.

– Legal. Já esteve na Romênia? Ouvi dizer que Bucareste é muito bonita.

– Não, nunca. Nunca viajei para fora do Brasil.

– Se pudesse escolher um lugar para ir agora, para onde iria?

– Acho que Nova Iorque, sempre quis conhecer a Europa.

A frase doeu nos ouvidos de João. Ele fixou-se nos olhos esverdeados, avaliou o cabelo escuro, o rosto branco, os seios de 22 anos, a barriguinha lisa com um piercing dourado. Avaliou a situação e continuou batendo papo com Adela. Fazer o que. Ele era só discurso. Era homem e ponto final.

[Ouvindo: Southbound Again - Dire Straits - Dire Straits]

12 de março de 2008

Cão na madrugada

As pálpebras de João pesavam dois quilos cada. Cada olho tinha um metro cúbico de areia arranhando a córnea. A cada piscada, os olhos se fechavam mais e mais tempo. A madrugada não era mais sua amiga. Talvez fosse o tema do trabalho, chato e pouco desafiante. Talvez fosse apenas sono.

Mas um ruído diferente no corredor chamou a atenção e descarregou um pouco de adrenalina no corpo de João. Um barulho de patas de cão no piso de cerâmica. As unhas compridas de um animal. Mas João vivia sozinho, nem cachorro, nem filhos, nem esposa. Ele e a madrugada e só.

Uma virada cautelosa na cadeira de espaldar alto, olhos fixos na porta do escritório para o corredor. Nada. O mesmo silêncio de sempre no apartamento vazio.

João volta a se concentrar na conta caixa, da DRE, no balanço da empresa fictícia. Os resultados foram satisfatórios? A lucratividade atingiu as metas? Perguntas chatas com respostas chatas. E o ruído de patas novamente no corredor.

Agora a cadeira se vira de sopetão para João dar de cara com um cachorro. Um doberman preto, quieto, olhando para João. Olhos avermelhados na escuridão do corredor.

O que esse cão faz ali, como entrou, será feroz? As perguntas já não são tão chatas. São altamente relevantes para João, que busca e busca as respostas sem sucesso.

– Pode voltar a trabalhar, não quero atrapalhar – diz o cachorro, com voz tranquila, que não parecia combinar com o porte do animal.

Um cachorro que fala? É só o que faltava para João, sempre acompanhado nas madrugadas por alucinações, anjos e demônios. Estava velho demais para cães que falam. Continuou olhando o doberman.

– Está estranhando minha voz? Bastante singular, porque essa voz foi você quem me deu.

"É claro", pensa João. "O cachorro que fala e está no meu corredor não fala e nem está no meu corredor. Está na minha cabeça".

– Exatamente – retruca o bicho, como se lesse o pensamento de João.

– Você ouviu o que eu pensei? – pergunta João em voz alta. Alta demais para a madrugada.

– Eu sou o seu pensamento. Estou em seu pensamento. Eu sou. Eu existo.

"É só que me falta. Além de falante, o cachorro é metido a filósofo", racionaliza João.

– O filósofo é você. É você quem fala, quem arrasta as unhas no corredor escuro. É você que tem os olhos vermelhos na escuridão. Você é eu, e eu, você. E ambos somos. Só.

– Escuta aqui, Rex, vê se me deixa em paz, então. Preciso terminar isso aqui. Xô, vai embora! Passa!

– Não funciona assim. Eu sou fruto do seu pensamento. Das sinapses cansadas de pensar em gestão, em planejamento estratégico, em propostas comerciais e retornos financeiros. Eu sou o seu eu mais sincero, o seu quadrúpede interior. A besta que estava adormecida no fundo do cérebro e que saiu quando a mente ameaçou dormir de tanto tédio e sono.

– Tá, e como eu faço para você ir embora? – João perguntou.

– Você acorda e pronto.

Foi a senha para João notar o óculos torto caído sobre o teclado do computador, sentir a dor das teclas F6, F7 e F8 que marcavam sua testa, o torpor no braço que esticava-se sobre o mouse pad de forma pouco natural.

Levantou-se, foi ao banheiro e para a cama. E sonhou com números, com contas caixa, DREs e planilhas. E, pela manhã, entre uma colherada e outra de granola, disse a si mesmo que era bem melhor sonhar com cães filósofos.

[Ouvindo: Ya no hay héroes - Loquillo y Trogloditas - Tiempos Asesinos]

29 de janeiro de 2008

Sunset

Sempre gostei do pôr-do-sol aqui. É clichê, mas uma volta pela Mulholland Drive no fim de tarde relaxa e aguça os sentidos. Faz esquecer a vida suja e doce de todo dia. Cara, tô virando um colecionador de clichês.

Ainda assim, aproveito o restinho de sol no rosto, o vento entrando pela janela aberta do Buick caindo aos pedaços. Fazer o quê. A vida é uma merda para um jornalista cucaracho em LA. Ou, poderia dizer que LA é uma merda. Jornalistas cucarachos são uma merda. A vida é uma merda.

Ainda bem que o pôr-do-sol na Mulholland Drive sempre estará aqui. Quer dizer, não se depender dos catastrofistas tipo Al Gore. Vai que estão certos. Melhor aproveitar agora. Nem que seja respirando esse ar inebriante. Efeito do dióxido de carbono, eu sei. Mas é mais barato que pó.

Aliás, uma carreira agora cairia bem. Mas nunca antes do trabalho. É bom estar esperto. Nunca se sabe o que vem pela frente. Quer dizer, eu até sei, mas melhor curtir o pôr-do-sol. Sei que quando entrar na Beverly Glen eu acordo do sonho e viro o mesmo bicho de sempre. Nojento, ao gosto do freguês.

Impossível não odiar essa cidade. Impossível não amá-la. O pôr-do-sol e junkies vagando nas ruas, as lambidas do pacífico e as lambidas de cachorros doentes. Tudo é LA. Eu sou LA. Sempre fui, desde pequeninho. Só não sabia. Vim descobrir aqui.

Uma última curva e cá estou. O pôr-do-sol, o ocaso, a última luz da minha vida. Taí, clichê atrás de clichê. Ainda bem que não ganho mais a vida vendendo palavras. Até elas se esgotaram. Que se foda. Paro o Buick numa transversal, caminho a até a Sunset e dou meu primeiro oi:

- Hi, gorgeous. Looking for a date?

[Ouvindo: Women - Def Leppard - Hysteria]

22 de janeiro de 2008

Desconforto

Senti a porta abrir e o ar frio entrar meio sem jeito, pedindo desculpas por atrapalhar. Uma virada na cama, um resmungo e a reclamação: "Fecha isso aí". O leite já tinha estragado e ela nem sabia. Suportar isso toda noite, sem exceção, era como carregar um cavalo nas costas no meio de um lamaçal. É o que dá quando não se pesa as conseqüências, quando a razão escapa rapidinho, no meio da vida da gente. Agora era tarde para voltar atrás e dizer: "Só fico com você se largar essa vida".

O pior é que nem dava pra reclamar. Ela punha o pó na mesa e o uísque no meu copo. Comida quando desse fome, cama quando desse sono. Nos intervalos, pó e uísque, talvez um pouco de tevê. Meu irmão diz que essa é uma vida chata. Nunca gostou de eu ter ido morar com Circe, não admite que o maninho mais novo é o gigolô de uma puta. Mas ele bem que olha pra ela com gosto. Todos olham. Eu nem ligo. É o trabalho dela. Só não agüento quando ela chega no meio da noite, cheirando a sexo, com jeito de cansada, ardida, não dá pra mim. Só de manhã. Mas aí quem não quer sou eu. Se pelo menos eu não me incomodasse com isso, até poderia ir tocando, pó, uísque e tevê, uma punheta de vez em quando.

Até que, na quarta-feira, bem cedo, logo que acordou - ela tem essa mania ridícula de levantar cedo, antes das 11 horas - me disse com um sorriso: "Vou largar a vida". No início achei legal, finalmente teria a Circe pra mim e só pra mim. Mas a ficha caiu meio rápido, tanto que nem deu pra aproveitar o momento: "Porra, quem é que vai trazer grana pra essa casa?". O silêncio. Teria que ser eu. Bem feito. Você namora uma puta, ela te fode. É a lógica do jogo.

"Sem chance". Rompi a quietude do quarto, com um resmungo. Ela não retrucou. Apenas vestiu a calça e os tênis surrados e saiu pra rua: "Vou comprar camisinha". Por mim tudo bem, não quero nem saber. Pó, uísque, tevê, punheta. Deixo a porta do quarto aberta e sonho com os anjos a noite toda. Nada mais me incomoda.

(Publicado pela primeira vez em 23/06/2003 - veja post abaixo)

Doze

Uma rua praticamente deserta, doze anos depois. Se encontraram por acaso. Não pensavam mais um no outro.

- Meu Deus, há quanto tempo?

- Muito - ele respondeu, a voz meio cansada, meio alterada pela ressaca.

- Muito - concordou ela.

- O que você faz por aqui?

- Vim para o show dos Stones. Você também?

- É. Mas foi meio fraco, não acha?

- Eu gostei.

- Pô, eles não tocaram nada mais antigo, do Beggar's Banquet, por exemplo.

- Você e as músicas antigas. Sempre um relógio analógico num mundo digital.

- Gostei disso. Inventou agora? - ele perguntou ironicamente, ofendido.

- Arrã. Tenho minhas tiradas.

- Todos têm o seu dia. Tá sozinha?

- Com meu marido.

- Casada? Não brinca!

- Claro que sim. Você não?

- Nem pensar.

- Nem pensou em amadurecer um pouco nesses onze, doze anos? - corrige ela rapidamente.

- Sei, casar é amadurecer. Claro.

- Não me venha com essas ironias. Pela roupa vejo que ainda sofre de Síndrome de Peter Pan. Essa camisetinha justa não fica bem na barriga de um coroa.

- Há quem goste.

- Claro, na Praça Mauá.

- Quem é o irônico, mesmo? - revida ele.

- Touché.

- E esse tal marido, te faz feliz?

- Sim, é claro.

- Como eu te fazia feliz?

- Você não me fazia feliz. Me deixava com tesão. No começo era bom, mas casal nenhum agüenta viver só trepando.

- Não me parece uma má idéia.

- Não foi a impressão que eu tive nas últimas vezes.

- Touché - ele sorriu.

Ela sorriu de volta e virou-se atendendo ao chamado de um homem mais velho, que acenava de dentro de uma minivan de luxo.

- Teu marido tá chamando. Carro de coroa o dele, hein?

- Esse é o meu. O dele é um 4x4 importado.

- Claro que é. E aposto que ele tem uma lancha também.

- Jet-ski.

- Seria minha segunda alternativa.

- Você ainda veleja?

- Cada vez mais. E ainda coleciono carros esportivos e ainda jogo videogame. Mais alguma pergunta para você medir o grau de maturidade?

- Não, nenhuma.

- E ainda trepo como quando tinha 25 anos - ele completou por conta própria no momento em que uma garota de 21 pendurou-se no braço dele, usando top e microssaia. Ela olhou com desdém para a menina, balançou um pouco a cabeça e despediu-se dos dois.

Ao entrar no carro, sentiu o gosto amargo de uísque que sempre sentia nos lábios dele, o cheiro do suor de seu umbigo, a textura de seu pêlos. Uma breve memória sensorial da vida que teve.

Ele, ao beijar a ninfetinha ao seu lado, sentiu o perfume importado que a ex-mulher usava, o gosto do seu batom e sentiu nas coxas da garota, a textura madura do passado. Lembranças da vida que não mais teria.

[Ouvindo: DownThe Road Apiece - Rolling Stones - Now]