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17 de abril de 2011

Retomada da vela

Uma das expressões que cresci ouvindo é “veranico de maio”. Estamos quase em maio e não dá pra dizer que tenha esfriado pra valer. Ainda assim, deixei de velejar lá por fevereiro, quando numa velejada com o Carlito, quebrou o trilho do carrinho da genoa.

Ontem, meu amigo Peter ajudou a consertar o carrinho. Na verdade, usei o conserto ao barco como desculpa para tirar ele de casa para que a família pudesse preparar uma festa surpresa.

Ainda assim, depois de um bom tempo, o Gostosa ficou mais perto de voltar ao mar. Ficou faltando apenas fazer novos furos para fixação do carrinho e colocar o trilho. Coisa que devo fazer nessa semana ou no feriado de Páscoa. Quero deixar o reforço que fizemos com resina epoxi curar bem antes de lixar e fazer a nova furação.

16 de dezembro de 2010

Back in business

Alarme falso a quebra da cruzeta do Gostosa. Ontem estive na marina com o meu cunhado velejador, Luiz Antônio, e resolvemos o problema do barco. O garlindéu – acho que esse é o nome, embora eu conheça mais o termo referindo-se à peça que une a retranca ao mastro – que segura a cruzeta no mastro, teve seus rebites de alumínio estourados. Não sei se foi por conta da pressão ou se por fadiga mesmo. Deviam estar ali há anos. O que fiz foi me dependurar no mastro, com a ajuda do Tonho, e trocar os rebites velhos por novos. Isso deixou o Gostosa pronto para navegar de novo. Só falta acabar esse inverno fora de época que se instalou em Floripa e volto ao mar.

30 de outubro de 2010

Velejada na sexta-feira

Não foi por falta de tentativas anteriores que só nesta sexta, dia 29, consegui velejar num dia de semana. Desde que voltei a atuar como consultor, venho tentando pegar uma sexta à tarde com dia bonito para botar o Gostosa no mar. Coincidiu que meu camarada e proeiro de longa data Carlito está trocando de emprego e resolveu ficar uns dias entregue ao dolce far niente. Era o parceiro que estava faltando.

Saímos para o mar à tarde, em torno de 14h30min. Meio na coragem, porque um pouco de gasolina velha entupiu o motor. Levamos ele mesmo assim, mas não chegamos a usar. O pessoal da marina nos deu um reboque até uns metros da costa, só para livrar das marisqueiras e dos barcos apoitados. Subimos vela com facilidade e zarpamos para uma bela velejada. Até na chegada, consegui manobrar o barco até a entrada da marina apenas no vento.

O vento estava forte, de Nordeste, entre 10 e 12 nós com rajadas acima dos 15 nós. Bastante para um Day Sailer e dois caras que pesam pouco mais que 70 quilos. Andamos boa parte do tempo com o barco afundado na água, muito adernado e praticamente todo de lado. Ainda bem que o leme é comprido, ou teria perdido o controle por alguns momentos. Bem, melhor vocês verem o videozinho que montei com as imagens que fizemos na sexta.


Update: Mancada minha colocar uma trilha com direito autoral. Usei Loss of Control, do Van Halen, e editei o vídeo para o ritmo da música. Mas o YouTube já pegou a minha “pirateada” e tirou o áudio do vídeo. Mudei o áudio usando uma música oferecida pelo site, o que vai fazer com que apareçam anúncios no vídeo. Vou ficar atento para numa próxima vez, além de editar o vídeo, criar minha própria trilha.

19 de setembro de 2010

Primeira velejada da temporada

Às portas da primavera, saí para velejar com o Gabriel, sobrinho da Lu, e a namorada Jessica. Depois de dois dias de vento muito duro, Sul, entrou um Nordeste simpático e agradável no final da manhã deste domingo. Era o que bastava para tirar o Gostosa do seco. E eu da seca. Saca só o filme e o trajeto do passeio:

 


Visualizar Velejada de 19-09-2010 em um mapa maior

24 de janeiro de 2010

Não foi agora

Acabei não indo velejar no sábado. Depois de ter acordado cedo e decidido sair com o Gostosa, o tempo começou a ficar meio feio. Aí abortei a saída. Até daria para ter ido, mas umas nuvens escuras rondaram os céus de Floripa durante praticamente todo o dia.Aí é melhor não arriscar. Ficou para a semana que vem, se o tempo ajudar.

23 de janeiro de 2010

Para tirar o “branco neve”

Daqui a alguns minutos, saio de casa rumo a Santo Antônio de Lisboa para uma velejada. Um pouco de sol, mar e vento é tudo o que preciso para fazer o corpo perceber que está de novo em Florianópolis.

Há um bom tempo que não velejo. Nem lembro quando foi a última saída. Mas tô seco para embarcar no Gostosa e rumar em direção a nenhum lugar específico e sentir o barulho do casco contra as ondas.

Tô levando a câmera a prova d’água que ganhei de Natal dos meus pais e na volta posto fotos da saída.

4 de maio de 2009

Indo onde Gostosa alguma jamais esteve

Faz um tempo eu escrevi aqui que um dos meus planos para o Gostosa era dar uma esticada até Governador Celso Ramos. Fiz isso ontem, com o amigo Carlito. Foi uma velejada de sete horas. Saímos às 11 horas da marina e voltamos em cima da hora de fechar, às 17h55min. Só uma parada: já perto do continente, para almoçar, por meia hora. Foi uma velejada gostosa, digna do nome do barco, sem ventos muito fortes e com o mar bem tranquilo, mesmo na boca Norte da baía. A imagem do trajeto, plotada no GPS e transferida para o Google Earth está aí embaixo (ainda estou tentando descobrir um jeito de colocar esses dados do GPS no Google Maps).

velejada

Update: O proeiro/timoneiro Carlito Costa conseguiu (ele me explica outra hora como fez) colocar o mapa da velejada no Google Maps. Taí o percurso, agora mais interativo.


Visualizar Velejada de domingo 3/05/09 em um mapa maior

2 de fevereiro de 2009

Tirando o atraso

Cara, foi lindo! Um final de semana de cinema aqui em Floripa. Solzão, céu claro, vento perfeito. Não queria mais nada. Era um final de semana que prometia uma bela velejada. Já na sexta à noite comecei a catar um proeiro para sair sábado com o Gostosa.

Giorgia foi a escolhida. Saímos da marina em torno de 10h30min e velejamos até às 14 horas, mais ou menos. O porém é que mais uma vez a vela não subiu totalmente. Mesmo trocando adriças, lubrificando roldanas, fazendo o que dava pra fazer.

Depois da velejada, que mesmo com a vela "rizada" foi excelente, eu subi a vela no seco. Com muita força - ajuda do pessoal da marina - conseguimos desobstruir o caminho da vela. Tinha alguma coisa trancando a calha do mastro.

Com isso resolvido, fiquei empolgado em repetir a dose no domingo. Dito e feito: convoquei o Carlito e o João Manoel, meu primo mais novo, para sair. Embarcamos às 14h30min e velejamos até 17h45min.

Vento forte até passarmos o Ratones Grande e nos aproximarmos um pouco do continente. Duas cambadas e rumamos para o finalzinho do Sambaqui, quase no mangue da Daniela. Uma parada para banho de mar e tocamos o barco de volta para a marina. Uns jaibes e um tempinho surfando em asa de pombo e chegamos de volta.

Duas saídas num único final de semana. Feito inédito que se reflete agora nos meus peitorais doloridos e nos abdominais cansados. Mas felizes.

Carlito (esq.) e João Manoel tomando banho de mar com as ilhas de Ratones ao fundo

[Ouvindo: Teenage Lobotomy - Ramones - Hey! Ho! Let's Go - Anthology (Disc 1)]

5 de janeiro de 2009

Cinza

Quando a neblina chegou, o mar era seu único companheiro por dois dias. O cinza úmido engoliu o barco, adensando-se pouco a pouco. Para João, era só mais uma neblina forte, uma das muitas que ele havia pego nas suas aventuras. Vivia de navegar. Transportar veleiros de uma marina a outra. Dessa vez, era um belo barco. Dava gosto de navegar. Um Benetau Océanis 400. Um veleiro oceânico de 40 pés, fabricado em 1996, em estado de novo. Seu cliente havia comprado o barco na Argentina e contratado João para levá-lo a Florianópolis.

Cinco dias antes da neblina o engolir, ainda no Iate Clube de Puerto Madero, João fez uma revisão geral no Da Vina, o nome atual do veleiro. Ergueu o barco no travel lift, fez uma cuidadosa inspeção do casco, leme, hélice e quilha. Por dentro, observou qualquer sinal de osmose, de infiltração ou rachadura e deu uma geral no motor. Não queria ser pego de surpresa no caminho até Santa Catarina.

Bem equipado, o Da Vina contava com um completo sistema de navegação, com radar, sonda, GPS, piloto automático e anemômetro. Dois de cada um. O antigo dono era quase tão paranóico com segurança quanto João. Certamente devia ter feito longas travessias com o barco. Era a única razão para investir tanto em equipamentos.

Depois de se certificar que o veleiro suportaria bem a viagem, João tratou de torná-la confortável. Com o dinheiro que seu cliente lhe deu para despesas, comprou duas garrafas de um bom Malbec argentino, provisões secas e frescas e voltou para o hotel. Ia dormir bem essa noite, para estar atento durante toda a saída do Prata. Sonhou com tango e tangas. Em breve estaria em casa de novo, tomando sol na praia e com bons 30 mil reais a mais no bolso.

No dia seguinte, ao raiar do sol, João e Da Vina já estavam velejando. Os panos totalmente içados, caçados, aproveitando o pouco vento na saída do iate clube. Esperava mais vento ao seguir o curso do Prata rumo ao Atlântico. Menos de duas horas depois de sair, a velejada começou a ficar interessante: ventos de 30 a 35 nós e um bom rendimento do barco. Claro, era um Benetau, bem construído, bem equipado. Um barco como João teria um dia, tinha certeza.

A roda de leme respondia bem, as velas trimadas e as catracas ao alcance do timoneiro. Nesta travessia era essencial saber o papel de cada cabo, de cada moitão, de cada manilha. Sozinho, João não podia errar. E não iria. Para começar, nunca foi de arriscar. Correr regatas não era o seu forte. Não gostava de estressar os barcos, levá-los ao limite. E essa característica era justamente o que os clientes gostavam tanto em João. Contratá-lo para transportar um barco era seguro. Ele não ia exagerar, não ia "dar um pau" no barco.

Depois de quase 14 horas velejando, o Da Vina atracou no Yatch Club Uruguayo, em Puerto de Buceo, em Montevideo. João dormiu no barco mesmo, cansado da longa travessia entre as capitais. Tinha muita água pela frente, mas estava contente. Sonhou com carros velozes, bons vinhos e belas mulheres.

Sorria ao acordar, já com o sol alto no horizonte. Estava tarde para vencer mais uma etapa de sua viagem, mas não se importou com isso. Fez uma boa refeição, se despediu dos marinheiros uruguaios que conhecera e partiu novamente. Faltava pouco para sentir o cheiro de maresia.

Quando finalmente passou pela Isla de las Flores, três horas depois de partir, sentiu a brisa marinha no rosto, acompanhada de uma sensação de estar em casa, no seu elemento. Havia uma neblina leve, típica da região. Para ganhar velocidade, João moveu a roda do leme, ajustando o curso para Este-nordeste. As velas encheram mais e o barco começou a se comportar como o excelente cruzeirista que era, enterrando a proa nas ondas mais altas, singrando até as vagas mais violentas.

Com o piloto automático ajustado, João entrou na cabine para preparar algo para comer e ler um pouco. Descansar da roda do leme, do sal, do sol e do sereno. Sentou-se, comeu com calma e pensou em quão fácil seria a travessia. Mais um dia inteiro de velejada e estaria no Brasil. Ficaria feliz em ver o Farol da Barra do Chuí, o primeiro sinal brasileiro visível do mar para quem vem do Sul.

A noite daquele dia foi tranquila. Bons ventos, o barco quase que o tempo todo em piloto automático, nenhum sinal de risco no radar - João tinha muito receio de encontrar um navio grande na sua rota e a possibilidade de colisão, ainda que ínfima, era assustadora.

O dia seguinte teve um pouco de neblina ao amanhecer, que logo se dissipou. Da roda do leme, foi possível ver baleias e um cardume de pinguins. Ao longe, avistava a bela paisagem do nordeste uruguaio. O Farol de La Paloma, já bem próximo à fronteira com o Brasil. Mas os ventos amainaram e o Benetau perdeu rendimento. O Nordeste que tocava o barco numa orça apertada, obrigando João a cambar constantemente se transformou num Sul razoavelmente fraco. Tão fraco que nem parecia Sul. Coisas do aquecimento global, pensou o marinheiro.

João caminhou até a proa, armou o balão assimétrico, recolhendo a genôa no enrolador. Agora o barco era um ponto vermelho e laranja para quem olhasse de terra. Toda atenção era necessária. A grande área vélica da vela de proa poderia causar um acidente numa rajada mais forte ou numa alteração brusca de rumo. João seguiu assim, cansado de tanta concentração, até começar a entardecer. O pôr-do-sol veio encontrá-lo na proa do Da Vina, recolhendo o balão e desenrolando a genôa. Agora, durante a noite, o piloto automático iria tocar o barco. Melhor descansar.

No cockpit, um piquenique: uma garrafa de Malbec, torradas com caviar. Sevruga, claro. Cortesia do cliente, que concordara em bancar as despesas de alimentação da viagem. Depois de três taças, João sentia o efeito entorpecedor do vinho argentino, mas ainda assim reagiu à nova mudança na direção do vento. O Sul fraco virou um Nordeste fraco. Pequeno ajuste no rumo, na trimagem das velas e o barco estava pronto para seguir sozinho.

Seguiu, sozinho, rumo à neblina. João sentiu a umidade quando se despia para dormir. Uma neblina forte, estranha. Fechando a cabine hermética, João se separou da umidade e dormiu um sono inquieto. Sonhou com escuridão, com brigas e que caia do céu no meio de nuvens que não acabavam mais.

Acordou cansado e abriu a gaiúta e a porta para o cockpit. A neblina estava forte lá fora e a umidade invadiu a cabine. Era dia, mas tudo estava tão cinza que podia ser noite. João podia ver piscar as luzes de navegação no meio da umidade cinza. Mais nada. Não enxergava o Farol de Chuí, embora o GPS indicasse que estava bem próximo dele.

João seguiu navegando pelo GPS, torcendo para a neblina dissipar o suficiente para enxergar Santa Vitória do Palmar, a Praia do Hermenegildo, alguma coisa que fosse familiar. Mas nada. A neblina seguia ficando mais densa, mais densa, mais cinza, mais úmida.

Pelo seu relógio, já seria meio-dia, mas o disco do sol não vencia a neblina. João não vencia a neblina, por mais que apertasse os olhos, franzisse o cenho para enxerga um pouco mais que os enroladores na proa. No relógio, o tempo foi passando devagar. No oceano, mais devagar ainda, numa calmaria irritante.

Mas o velejador sabia se controlar. Não era a primeira vez em que ficava sozinho e entediado no mar. Bastava não brigar com o mar. Ninguém ganha essa briga. Entrou na cabine, pegou um livro e começou a ler, tentando despreocupar-se. Contudo, de vez em quando, olhava para o GPS e o radar. O barco avançava lentamente. Lento demais para o seu tamanho. Lento demais para os ventos que normalmente sopram naquela região.

O dia passou devagar, mais devagar do que o avanço do barco no meio da densa neblina. João foi dormir preocupado. Era seu terceiro dia no mar, o quarto velejando e mal havia chegado ao Brasil. Se o vento tivesse ajudado, já estaria passando a divisa entre os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, na Barra do Mampituba. Estava longe, ainda.

Depois de um sono nada reparador, João acordou mais cansado do que o dia anterior. Abriu a porta da cabine para o cockpit e a neblina invadiu o interior do barco, como se fosse uma entidade com vida própria. Tudo ficou acinzentado aos olhos de João. As telas dos eletrônicos, o inox do fogão, a sua própria pele. A umidade forte demais incomodava os olhos, como se João estivesse tentando mergulhar sem cerrar as pálpebras.

João podia sentir a neblina. Entendeu a velha hipérbole: aquela era uma neblina que se podia cortar com uma faca. E o Benetau começou a cortá-la mais e mais. O vento começou a soprar com mais força, o suficiente para João ouvir o barulho do casco singrando o mar. O suficiente para o barco adernar à sotavento e o velejador sentir o caturro.

Em vez de animar-se, João preocupou-se. Não havia modo de enxergar à frente. Aproximou o rosto dos eletrônicos. Sabia que eles funcionavam pelo calor que o LCD emitia, mas não conseguia ver nada. Nem colando os olhos no display era possível enxergar algo. Nada era visível agora. Só um cinza que cobria tudo. Tudo mesmo.

A impressão que João tinha era de que havia ficado cego. Tateou pelo barco, procurando as catracas. Encontrou a que julgava ser do grande e seguiu o cabo até o stopper para soltar a vela. Recolheu o pano completamente, e, sempre tateando, fechou a capa. Fez o mesmo com a genôa. Estava sem velas. Não podia ficar assim, à deriva. A neblina estava deixando ele nervoso. Jamais, em todos os seus anos de vela, tinha feito isso: baixado todas as velas sem ligar o motor. Felizmente, depois da segunda tentativa, o ronco e o cheiro do diesel encheram o ar.

Mas, ir para onde? Não tinha como se orientar, como seguir navegando. João tinha certeza de que os eletrônicos estavam em modo de alarme. Ou seja: se algum obstáculo aparecesse no radar, um sinal sonoro o avisaria. Se a profundidade chegasse próxima a três metros, também soaria um alarme. Com o motor na velocidade mínima, João continuou avançando. Muito, mas muito devagar. Cortando o cinza.

Seguiu nessa faina, cego, por sabe-se lá quantas horas. Não tinha como enxergar o relógio e perdeu a conta dos bips que o Omega dava nas horas cheias e meias-horas. Ligou todas as luzes. Caso fosse noite, seria mais fácil de um navio ou outro barco notá-lo assim. Tudo o que as luzes faziam era colorir um pouco o cinza. De azul, de verde, de vermelho, de amarelo. Dependendo do tipo da lâmpada.

Ele nunca havia visto uma neblina assim tão densa. Ninguém havia visto uma neblina assim. João só sentia o barulho do motor e do casco, o cheiro do diesel e o tato de suas mãos na roda de leme. Não via nada, não ouvia outra coisa. Manteve o barco no rumo com um cabo amarrado num dos raios do timão e foi dormir. Ou tentar dormir. Passou a noite em claro. Mesmo com os olhos fechados, o cinza úmido lhe perseguia.

Não conseguiu dormir, mas manteve-se no camarote de popa por quatro horas, descansando o corpo. Precisaria do descanso quando saísse da neblina. Agora, João contava os bips do relógio. Oito bips depois de ter deitado, levantou-se para o cinza lá fora. Nenhuma mudança na situação.

Ao longo do dia, ou da noite, não sabia ao certo, os ruídos foram ficando mais fracos. Como se a neblina engolisse até mesmo os sons. O ronco do motor foi ficando fraco, a ponto de João se perguntar se ele estava ligado. Uma leve vibração no cockpit indicava que sim. O barulho do casco nas ondas também foi diminuindo de intensidade até sumir completamente. João não via e não ouvia.

Ele se perguntava o que estava acontecendo. Se estava louco, doente, se fora acometido por cegueira e surdez inexplicáveis. Se a neblina não tivesse chegado devagar, acreditaria nessa hipótese. Mas não. O mundo não era negro e sem luz, como o mundo dos cegos. Era cinza e úmido. E quieto, assustadoramente quieto.

O silêncio e a cegueira cinza foram tomando conta de tudo à volta de João. Mesmo o tato nas coisas era embotado pela umidade cinza. João começou a bater-se nas anteparas, a tropeçar nos cabos. Sabia que o diesel não duraria para sempre. Se estivesse avançando a meio nó, já deveria estar em Florianópolis, caso tivesse tomado o rumo correto. Mas aquela neblina tão densa parecia acompanhar o barco onde quer que fosse. João tentou acelerar ao máximo o motor e seguiu assim por dois dias, tentando escapar da umidade gris. Sem sucesso.

Depois de sete dias sem dormir, sem comer direito por não conseguir encontrar as coisas, sem ver, ouvir e sem poder sequer tatear, João encontrou uma solução: amarraria uma bóia na cintura e pularia ao mar, para, dentro da água, abrir os olhos e ver alguma coisa ou ouvir o barulho do motor, sentir a água fria no seu corpo. Ele precisava disso, de ter a certeza de havia algum sentido funcionando. Tato, visão, audição. Qualquer deles servia.

João colocou o plano em execução. Arrastou-se pelo cockpit até o lugar onde achava que haveria uma bóia circular de resgate. Não conseguiu sentir nada, mas agarrou um cabo ou algo que parecia cilíndrico e maleável e seguiu até a borda do barco. Seu corpo chocou-se contra o que pareceu ser o guarda-mancebo. Passou um pé e depois o outro e pulou. Sentiu um choque leve nos pés e depois no resto do corpo. Abriu bem os olhos, mas não havia nada ali. Nenhum ruído, nenhuma cor senão o cinza. A umidade era maior, era verdade. Mas era como se ainda estivesse no meio da neblina, e não imerso no mar. Abriu a boca e sentiu um leve gosto de salgado. Mas era cinza. Tudo cinza.

João largou o cabo que tinha nas mãos e deixou-se afundar devagar. Primeiro abriu bem a boca e tentou respirar. O cinza úmido e agüado entrou boca adentro, invadiu a garganta e a traquéia, encheu os pulmões. Foi ficando mais e mais cinza. Por dentro e por fora. Agora, tudo era cinza. Ou quase tudo. As sinapses e os neurônios, antes de desligarem por falta de ar, se rebelaram contra o cinza. E dispararam informações para todos os lados. Formas, sensações, cores. Sonhos vermelhos, verdes, azuis, amarelos. Calor, frio, choques elétricos, cheiros e sons. Tudo ao mesmo tempo. Afundando no meio do cinza sem fim, João sorriu um sorriso colorido e morreu feliz.

[Ouvindo: White Unicorn - Wolfmother - Wolfmother].

8 de dezembro de 2008

Dando um trato na Gostosa

O sabadão foi dedicado à Gostosa. Acordei já meio tarde e toquei direto pra marina, no Santo Antônio de Lisboa. Levei duas horas para chegar lá por conta da fila na SC-401. Sabem, o lance do desvio pelo Caminho dos Açores? Pois é.

Cheguei lá sem almoçar, às duas e alguns minutos. Comi uns pedaços de galinha assada que alguns colegas velejadores haviam comprado e meti a mão no barco. Tinha duas tarefas mais "emergenciais": colocar o flutuador de tope que chegou nesta semana e descobrir porque a vela grande não estava subindo até o topo.

Com a ajuda dos dois rapazes da Marina e do Lídio, parceiro velejador, consegui descer o mastro e facilmente instalei o flutuador de tope. Para quem não sabe, trata-se de uma espécie de balão de plástico rígido que fica no topo do mastro. O objetivo é impedir que o barco capote caso vire. A ponta do mastro sempre ficará fora d'água e com mar calmo não chega nem a molhar a cabine com o barco virado. Isso vai me dar mais segurança para explorar os limites do Day Sailer em termos de desempenho.

Com o mastro baixo, pude ver que a adriça do grande - o cabo usado para içar a vela principal - estava meio maltratado pelo sol. Resolvi trocar. Além disso, as roldanas que ajudam a subir a vela estavam precisando de uma lubrificação. Fiz isso também. Claro que eu não tinha 15 metros de cabo pré-estirado à mão para substituir a adriça, mas deixei um cabo fino como guia para passar a nova adriça no final de semana que vem. Nesta semana eu passo no Armazém Náutico do Veleiros da Ilha e compro o cabo novo. Espero que isso resolva a encrenca de subir a vela.

Mas aproveitei o tempo lá para dar mais uma mexida na Gostosa. Uma das coisas que me incomodavam há tempos é que não tinha como regular a esteira da vela grande. A esteira é a parte que encaixa na retranca, perpendicular ao mastro. Já vi, em outros barcos, um mecanismo em que, usando cabos, é possível folgar ou caçar a esteira. Fiz uma coisa assim, usando um cabo de 3mm e um moitão pequeno. Ficou legal, mas ainda não está 100%. Vou ver se acho peças mais adequadas e troco o sistema no próximo sábado, quando for instalar a nova adriça.

Depois de tanto tempo trabalhando no barco, a fome veio com tudo. Botei pilha nos "velejadores de poita" que estavam pela marina e fizemos umas lingüiças na churrasqueira. Muito pão com lingüiça e coca-cola depois, voltei pra casa, já lá pelas seis e meia da tarde. Um baita dia.

[Ouvindo: Smaller And Smaller - Faith No More - Angel Dust]

22 de novembro de 2008

Gostosa dá a volta ao mundo

Nada de pornô nesse post, só para ficarem avisados. É que o amigão Serginho, de quem comprei meu barco, o Gostosa, me deu uma dica legal ontem. A Volvo Ocean Race (VOR para os iniciados na vela), uma das mais complicadas regatas do circuito de vela mundial, tem uma versão para se jogar online. Inscrevi meu barco ontem, o Gostosa. Claro que largo atrás de todos os outros concorrentes, mas ainda assim estou curtindo a estratégia do jogo.

Obviamente, não é preciso trimar velas, ajustar a escora mais a proa ou popa ou regular a quilha. Basta escolher o rumo e as velas mais indicadas para cada tipo de vento. As trocas de carta de vento acontecem a cada 8 da manhã e da noite. Ou seja, pelo menos duas vezes por dia vou ajustar meu barquinho.

[Ouvindo: Goodbye Stranger - Supertramp - Breakfast in America]

26 de abril de 2008

A primeira a gente não esquece

Apesar de velejar desde 2003, só fui participar de minha primeira regata hoje. Mas, quem diria: fui o primeiro a chegar de volta na marina! Com motor, claro. O dia foi lindo, mas infelizmente sem vento. Tínhamos, os tripulantes do Gostosa e dos demais 22 barcos participantes, três horas e meia para completar o percurso. Ninguém conseguiu.

Alguns, seis se não me engano, até esperaram até o último momento para ligar os motores e voltar. Eu e Rafael, meu valoros proeiro, não tivemos tanta paciência. Após fazer papel de rolha no meio da Baía Norte por uma hora e meia, lançamos ferro, demos um mergulho e ligamos o motor para voltar à marina Santo Antônio e a um delicioso carreteiro, chope à vontade (para o Rafa) e coca-cola de graça (para mim).

Esse foi o 2º Passeio das Cracas que a marina Santo Antônio, onde deixo meu barco, promove. No ano passado, quem ganhou foi um colega de lá, Carlos, com um Day Sailer muito parecido com o Gostosa. Um pouco mais novo, mas tão competitivo quanto o meu barco. Por causa desse histórico, Rafa e eu estávamos empolgados para disputar. Mas o vento não ajudou.

[Ouvindo: Think For Yourself - The Beatles - Rubber Soul]

10 de fevereiro de 2008

Fim de semana comprido

O dia de todo mundo tem 24 horas. Um final de semana, portanto, 48 horas. Muitos finais de semana são desperdiçados. Este que está acabando daqui a duas horas, eu não desperdicei.

No sábado pela manhã fui ao RCFL, o clube de aeromodelismo de Florianópolis. Estou fazendo aulas de aeromodelismo para poder usar o presente de Natal que a Luciana me deu: um Cessna 182 radiocontrolado.

Ao meio-dia, almoço com os amigos Paulo e Renata, no Recanto das Sereias, em Itapema. Estava indo correr com o pessoal do trabalho no nosso campeonato interno de kart. Fiquei em terceiro nessa corrida. Melhor que o quarto lugar da bateria passada.

À noite, um cineminha com a Berna e a Lu para assistir Sweeney Todd. Recomendo. É um musical de humor negro, negríssimo. Mas dirigido pelo Tim Burton e estrelado por Johnny Depp e Helena Bonham Carter. E Tim Burton combinado com esses dois sempre vale a pena.

Domingão meio nublado, com pouco vento. Ainda assim pulei cedo, enchi o galão de gasolina e toquei pra Marina. Com o Carlito como proeiro, saí pra velejar no Gostosa. Erguemos os panos pouco depois das 10 horas e só fomos conseguir um ventinho às 12h45min. Mas valeu. Em menos de uma hora fomos da ilha de Ratones Pequeno até a Costeira da Armação, em Governador Celso Ramos. Vai ser fácil chegar até a Fazenda da Armação ou Tinguá.

Final de tarde do domingo, papo com os amigos na Lagoa da Conceição, tomando um Smoothie no Jungle Juice. O único porém é que, como não almocei por ter passado a manhã e parte da tarde no mar, enchi a pança de comida. Tudo bem: amanhã eu capricho nas pedaladas e fico mais leve. Pelo menos a consciência.

10 de janeiro de 2008

Previsão de tempo

Chuvas para o final de semana, com queda brusca da temperatura.  Em Florianópolis, os termômetros não passam dos 26 graus no sábado e domingo.

Nada de vela nesse final de semana e tampouco de praia. Hora de assistir os mais de dez filmes que tenho gravados em casa e até agora não tive tempo.

Quem quiser ver as tabelas que consulto, o link é este.

[Ouvindo: Hino De Duran - Chico Buarque de Holanda - Chico 50 Anos - O Malandro]