25 de abril de 2007

Alice

O coelho já estava sangrando quando Alice passou pela rua. Agachou-se.
- O que houve? - Alice perguntou, amparando a cabeça do coelho com a mão esquerda, os olhos cheios de lágrimas.
- Um motoqueiro e me baleou. Já passou um monte de gente por aqui e ninguém me atendeu. Só você parou - falou, agonizante, o coelho.
- Meu Deus, ninguém parou?
- Ninguém. País das Maravilhas uma ova. Desde que aquela rainha maldita assumiu o poder, as coisas só pioram.
- Não fale, não fale. Você vai piorar. Uma ambulância, por favor! - Alice gritou, sem resultado.
- Ninguém liga para um coelho. Maldita a hora em que desafiei o Chapeleiro Maluco. O cara manda nas bocas de chá por aqui.
- Meu Deus, você trabalhar pro Chapeleiro Maluco? - horrorizou-se Alice, seus dedos de classe média largando rapidamente o coelho ferido.
- Não, moça. Eu sou de outra facção. A gente tava tentando tomar uma das bocas dele, no morro do Ás de Paus. Aí deu essa merda braba. É por isso que eu vou morrer.
- Meu Deus, e a rainha não faz nada? Os traficantes de chá se matando nas ruas e ninguém faz nada?
- Liga não, moça - diz o coelho, tossindo uma bola de sangue - É assim mesmo. Na hora que a violência bate na porta, as meninas riquinhas que nem você se apavoram. Mas depois de umas passeatas, umas palestras e umas prisões, todo mundo se esquece do problema.
- Eu não sou ass...
- Claro que não - interrompe o coelho, condescendente.
Com uma olhada final para Alice, o coelho sorri, os dentes cheios de sangue, e abaixa lentamente as orelhas. Os olhos vermelhos ficam opacos e o corpo amolece na calçada da Zona Sul do País das Maravilhas.
Alice levanta e olha para os lados, atrás de um soldado da Rainha de Copas. Ninguém parece dar bola para a cena. Alice segue até a delegacia mais próxima e avisa do corpo. Tomam seu depoimento, anotam seu dados, endereço, telefone. Alice se sente uma cidadã que cumpriu com o dever de qualquer cidadã.
Quando volta para casa, tem uma história e tanto para contar às amigas. Enquanto tomam um belo chá, comprado no morro do Ás de Paus.

20 de fevereiro de 2007

MBA em Gestão

Voltando dos Ingleses, agora há pouco, passamos, Lu e eu, por um outdoor que oferecia um MBA em "Gestão para Excelência". Isso nos fez pensar: é preciso colocar o objetivo das técnicas de gestão? Seria possível uma "Gestão para Mediocridade"? Claro que muitas empresas praticam isso, se retendo em picuinhas e desmotivando o grupo achando que está exercendo liderança. Mas o comentário é sobre os MBAs estranhos que estão aparecendo por aí. Aqui em Floripa tem um que é Gestão dos Negócios do Surfe. Isso que eu chamo de foco! Bem, pelo menos a universidade que oferece esse curso está na cidade certa. Especialmente nessa época do ano, Florianópolis tem surfistas saindo pelo ladrão.

4 de fevereiro de 2007

Enjôo

Luciana foi velejar comigo hoje pela primeira vez. Com essa experiência, descobrimos duas coisas: não consigo subir a vela grande do Gostosa sozinho e a Lu enjoa no barco. Até tentamos, acompanhados da amiga Michelle, velejar apena com a buja. E até íamos bem. Mas o enjôo da Lu começou a piorar e tive que ligar o motor para voltar até a marina, já que o Gostosa não orça sem a mestra, só com a buja.

Não sei bem se o enjôo se repetiria em condições ideais de equipamento, mar e vento. Ou seja, se eu conseguisse subir a vela mestra, o mar menos picado e o vento constante em cinco ou seis nós. Como agravante, Lu se recupera de uma crise de esofagite. Não sei se isso contribuiria para o enjôo. Mas vamos tentar de novo, num dia com mais um par de braços masculinos, que possam me ajudar a subir a vela, melhores condições climáticas e de saúde. Até porque a decisão de trocar o Day Sailer II por um barco maior vai depender muito, muitíssimo, do gosto que ela adquirir pela vela.

31 de janeiro de 2007

Rato de ferro-velho

Quem acompanha esse bloguinho há algum tempo já sabe que estou restaurando um Puma GTE 1976. Desde que comecei a fazê-lo, virei rato de ferro-velho. Sábado passado, estive na meca dos pumeiros. O lugar que 10 entre 10 "pumeiros" indicam para buscar peças usadas originais. Ilhota. Sim, Ilhota, a 13 quilômetros da BR-101, seguindo pela SC-470 rumo Oeste a partir de Itajaí.

Lá, há o ferro-velho do Sérgio, com pelo menos 10 carcaças de Pumas GTE, GTS, GTB e até um ocasional AM. Infelizmente, não havia nada que me servisse. Quer dizer, até havia, mas nada que o Sérgio pudesse me vender, já que ele também está restaurando um Puma semelhante ao meu, modelo "tubarão".

Sigo, portanto, na procura de sinaleiras traseiras (as mesmas da Variant e do TL), de quadros de porta, de console e painel, entre outros pequenos detalhes. Carros antigos são assim: sempre falta um detalhe.

Por isso passei a viajar olhando as margens das estradas, procurando por carcaças infestadas de ferrugem, por aglomerados de lata ao lado de casebres sem pintura. Aprendi a ver beleza nesses lugares. Em Araranguá, por exemplo, vi num ferro-velho um Gurgel X-12, perfeitamente recuperável. Com um pouco de dinheiro e paciência, claro. Em Balneário Camboriú, há um Maverick GT com algumas peças originais. O próprio Sérgio de Ilhota tinha um Aero Willys com a lata ainda inteira. Se tivesse dinheiro, comprava todos.

Assim, amigos, se nas suas andanças virem algum ferro-velho meio escondido, com uma carcaça de carro nacional antigo (Variant, TL, Zé do Caixão, Karmann-Ghia, Interlagos...) me avisem. Como recompensa, uma volta de Puma. Depois de pronto, é claro.

25 de janeiro de 2007

Google

Não vou dizer novidade alguma se escrever que nós, usuários medianos de computador, não usamos metade dos recursos do sistema operacional, dos aplicativos de processamento de texto, dos editores de planilha. É lugar comum. Quantos menus do Word você não sabe para que serve? E botões? E janelas? No meu caso, um monte.

Mas que eu não aproveitava o Google, isso é novidade! Fazendo uns cálculos de câmbio para planejar uma viagem, descobri que o Google faz, direto na barra de busca, conversão de moedas. Basta colocar o valor, o código da moeda de origem, o "comando" to e o código da moeda de destino. Exemplo: para converter 1.200,00 yuans chineses em reais, basta escrever 1200 CNY to BRL. O Google responde para você que o valor corresponde a "329.375458 Brazil reais".

Além disso, é possível fazer cálculos. Raiz quadrada, cubos, somas, multiplicações. Para quem está sempre com o navegador aberto, como eu, isso é uma mão na roda. Ainda mais prático se tiver a Barra do Google ou o Google Desktop. Para saber o que mais o Google faz, visite o próprio site.

[Ouvindo: Coração Tranqüilo - Pato Fu - Houve Uma Vez Dois Verões]

12 de janeiro de 2007

Anticlímax

Essa é uma história sem desfecho surpreeendente. O leitor não deve esperar surpresas, viradas, hábeis jogos de palavras no final. Aliás, se estiver lendo atrás de algo do gênero, desista. Vá procurar os demônios e assombrações de Stephen King, as engendradas revelações de Hercule Poirot ou Miss Marple nos livros de Agatha Christie, as emoções de frases curtas e parágrafos mínimos de Dan Brown ou seus genéricos.

Isso não é sequer um conto. Não tem estranhamento, não tem dicas de como a história se resolve. Ou tem? Já não sei. Se quiser descobrir o que é um bom conto, encontrar seus elementos literários, vá afundar os olhos em um bom Cortázar, em García Márquez. Ou pegue um bom brasileiro: Rubem Braga, Machado, Veríssimo, o filho. Só não leia mais desse texto. Não vá adiante.

Só prossiga se sofre do coração, não lida bem com emoções, acabou de sair da terapia e quer calma e quietude. Se seu tempo vale pouco ou nada, siga adiante. Uma palavra após a outra, esse texto se repete, vai ficando mais chato e mais sem graça. Depois não diga que não avisei.

Anderson é estúpido. Atravessa seus dias numa vidinha medíocre que podia muito bem ser encerrada por um Volvo N10 carregado de melancias ou um câncer terminal sem que alguém desse pela sua falta. Mas seria demais, muitas emoções. Portanto, tedioso, Anderson prosseguia existindo. Ia aos mesmos lugares, sempre. Com as mesmas pessoas, sempre. Falava as mesmas coisas, sempre.

Até que num desses lugares de sempre, com as pessoas de sempre e falando as coisas de sempre, ele viu Daniella. Um observador mais atento notaria o brilho no olhar de Anderson. Mas teria que ser muito sensitivo para notar, no meio de tanta pequenez. Daniella não era, e não deu bola para os olhares de Anderson.

Ele, na sua pasmaceira usual, nada fez por exatos 118 minutos. Mas quase ao cabo de duas horas desde que notara a garota ruiva, de nariz levemente arredondado e bochechas rosadas pelo álcool, ele levantou da mesa em que estava e sentou ao seu lado. Balbuciou uma dúzia de palavras que sequer lembra quais foram e esperou a reação a garota. Ouviu em resposta um "vê se se toca", seguido de um "me erra, mané". Anderson voltou para sua mesa e tudo seguiu exatamente igual.

Eu avisei.

[Ouvindo: Fascination Street - The Cure - Disintegration]

10 de janeiro de 2007

Eu quero dois

Um pra Lu, outro pra mim. Estou falando do iPhone que o Steve Jobs, CEO da Apple, lançou oficialmente ontem. Estive olhando o bichinho no site da empresa e fiquei de queixo caído.

Tem algo inovador na junção de telefone celular com mp3 player e acesso à internet? Não, nada. Sim, tudo. Toda ou quase toda a tecnologia usada no iPhone está em outros aparelhos disponíveis no mercado. Até o meu tijolão da Nokia tem mp3 player, toca vídeos e usa um sistema operacional bastante amigável, com interface gráfica. A Apple, mais uma vez, ganha pontos pelos seus desenvolvedores "pensarem fora da caixa", para usar uma expressão norte-americana e certamente cara a Jobs.

O resultado é um telefone que não tem teclas ou botões, roda o sistema operacional dos Macintosh (OS X), memória de 4 ou 8 gigabytes, câmera de 2 megapixels e conectividade sem fio via wi-fi, bluetooth e EDGE. E, marca registrada da Apple, um design fantástico.

Resta saber se o iPhone conseguirá manter-se sempre atraente num mercado dinâmico como o de telefones celulares de ponta. Um estudo do Yankee Group diz que o ritmo de troca de equipamento nesse nicho específico é de três aparelhos por ano. Se eu tivesse um iPhone certamente ia passar mais de um ano com ele. Quando será que esse brinquedinho chega no Brasil?

[Ouvindo: Life On Mars - David Bowie - Best Of David Bowie 1969-1974]

1 de janeiro de 2007

Nº 7

Já estava usando no notebok e gostei. Agora, instalei no desktop também e recomendo para os amigos: o Internet Explorer 7 é bem melhor do que a versão anterior. Vale a pena a atualização. Claro que os fãs aguerridos do Firefox vão dizer que a Microsoft chegou atrasada e que o browser da raposinha já tem abas de navegação há tempo (no IE7 são "guias"), bem como o terceiro colocado na corrida pela preferência dos usuários, o Opera. Mas, ainda assim, eu vou de IE porque é padrão de mercado. Como creio muito na força do mercado, prestigio o produto líder, hehehehe. Ah, um toque importante: é preciso usar um Windows XP legalmente registrado com o Service Pack 2 para poder instalar o browser. Até dá para instalar nos piratas, mas envolve mexer nas entranhas do sistema.

[Ouvindo: Kooks - David Bowie - Hunky Dory]

19 de dezembro de 2006

Recomendo

Quem vem aqui atrás de ficção e sai decepcionado (me falta tempo, pessoal), recomendo a leitura de "A Ilha", no Bobagêra, de Carlito Costa. Coisa de primeira. Vai !

18 de dezembro de 2006

Videozinho

Lauro Maeda fez um vídeo/slide show da velejada de que falo dois posts abaixo. Clique aqui para ver (executável - 15 MB). Observem a esteira deixada pelo Gostosa com o vento batendo de popa. Nunca tinha surfado com ele, mas se mostrou um barco bom para isso. Agora, com as funções de final de ano, só em 2007. Amigos proeiros, até lá!

[Ouvindo: Roberto Carlos - Por Isso Corro Demais - Em Ritmo de Aventura]

13 de dezembro de 2006

Bíblias

Religião não é meu forte. Nem meu fraco. Não dou bola para religiões. Mas tenho alguns livros "santos" na minha vida. Histórias de Cronópios e de Famas, de Julio Cortázar, é um. Outro é Manual de Vela, da Federação Espanhola de Vela. Mas ontem comprei mais um título que será minha bíblia por um bom tempo, pelo menos um ano e meio: Catálogo de Peças - Puma GTE-GTS 1970 a 1975. Havia achado esse catálogo por R$ 90,00 mais o frete no Mercado Livre. Mas pelo Orkut, na comunidade de pumeiros, recebi a dica de um paulista que vende o mesmo material por um preço mais camarada. Vai custar R$ 28,00 mais o valor do Sedex.
[Ouvindo: Whipping Boy - Ben Harper - Welcome To The Cruel World]

10 de dezembro de 2006

A primeira da temporada

Desde o outono não saía para velejar. Tentei por algumas vezes desde que o tempo começou a esquentar aqui por Florianópolis, mas sem sucesso. Hoje fui à forra. Com um ventinho bom de Nordeste, em torno de 10 nós com rajadas de 12 a 13 nós, fomos - o camarada Lauro Maeda e eu - em uma hora e meia até a Praia da Daniela, no Norte da Ilha. A marina onde guardo o Gostosa, meu Day Sailer II de 16 pés, fica em Santo Antônio de Lisboa. Até que fomos rápido.

Mas a volta, com o vento de popa e as velas em "asa de pombo", foi ainda mais rápida: meia hora. Surfávamos as ondas maiores, o que sempre é um pouco de adrenalina porque se perde momentaneamente o controle do barco. Voltamos a tempo de desmontar e guardar as tralhas ainda com sol. Logo depois, a chuva apareceu, tímida e perfeita para molhar velejadores bobos. Mas já não nos incomodava mais.

[Ouvindo: Lugar Nenhum - Titãs - Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas]

7 de dezembro de 2006

Velhinhos conectados

Minha mãe e meu pai têm 59 e 64 anos, respectivamente. Pessoas dessa idade usualmente não são muito afeitas a tecnologia. Os dois não são exceção. Mas ainda assim, se viram. Têm computador em casa, banda larga e nesse mês ganharam uma webcam da minha prima. Ontem me diverti com os dois, vendo eles pela cam. Minha mãe levanta a cabeça e baixa os óculos para olhar para a tela. Já meu pai estava indignado com a qualidade da imagem. Achava tudo muito borrado e com cores estranhas. Mas já é alguma coisa os dois usarem o MSN, ainda por cima com uma webcam. Ambos gostaram da experiência e acho que desse jeito vamos diminuir as contas de telefone. A minha e a deles.

5 de dezembro de 2006

Descobri a Antártica

Para quem não sabe, eu velejo. Não corro regatas nem tenho um barco grande que se possa levar família e amigos para passear nas dezenas de ilhas que circundam a porção insular de Florianópolis. Mas, ainda assim, velejo. E só agora descobri Amyr Klink.

Nunca tinha lido um livro dele, até o amigo Carlito, do Bobagêra, me dar Mar Sem Fim de presente. Li num fôlego. Aí o grande Marcelinho, aquele Da Poltrona, me emprestou Paratii - Entre Dois Pólos. Levei um pouco mais de tempo, mas comi o livro.

O fato é que estou numa fase "aventuras no mar". Vou atrás das aventuras do Endurance, o navio que Shackleton usou para tentar chegar ao pólo (agora não lembro se o Sul o Norte). Já havia lido a Expedição Kon-Tiki, sobre uns malucos nórdicos que resolveram chegar numa ilhota do Pacífico usando uma jangada pré-histórica. E tinha gostado. Mas lendo sobre as velejadas de Klink, vi que aventuras não precisam ser tão ousadas.

Assim, tracei a minha "Antártica" para esse verão. Chama-se Governador Celso Ramos. Vou sair com meu veleirinho num dia de bom vento e seguir até a Fazenda da Armação. Não é longe, é bem tranquilo chegar lá. Mas é uma mudança de foco nas minhas velejadas. É um objetivo.

Aceito candidatos a proeiro.

Sem compromisso

Nada de "que bom, o blog voltou", "ah, resolveu escrever" ou coisas do gênero. Não quero compromisso. Talvez passe mais seis meses sem dar as caras por aqui. Mas falei pelo MSN com o colega Carlito agora há pouco e deu na telha instalar o w.bloggar no notebook e escrever uma meia dúzia de obviedades sentado na cama e vendo tevê. Uma desgraça esse problema de concentração. Não fazer uma coisa por vez. E fazer tudo meia-boca.

1 de outubro de 2006

Declarando o voto

Acabei de teclar o 12 na urna eletrônica. Um pouco por desprezo à falta de idéias e ao arremedo de plano de governo que o principal candidato de oposição lançou à míseros 11 dias do pleito. Um pouco pelas alianças condenáveis desse mesmo candidato com coronéis atrasados politicamente e responsáveis pelo mesmo atraso desse nosso belo país. Por outro lado, teclei 12 um pouco também pela ojeriza à lambança administrativa do atual governo, pela incompetência em somar 4,5% mais 4,5% e pelo discurso vazio e despreparado do atual presidente.

Um, depois dois e firmei minha posição. Não por achar que as idéias ditas neo-liberais, a privatização e a responsabilidade fiscal foram erros dos oito anos de FHC no poder, nem por acreditar que o período lulista tenha sido tão pior. Não. Nem um nem outro. Dadas as condições de temperatura e pressão, suas alianças necessárias para governar, sua própria capacidade em enxergar além do próprio umbigo, eles não se saíram tão mal.

Não foi só por isso que digitei 12 agora há pouco, nessa tarde chuvosa na capital catarinense. Foi porque o monotema de Cristovam Buarque seria meu primeiro passo para tentar arrumar essa nação, caso fosse presidente. Não concordo com todas as idéias que o candidato do PDT tem para a área - acho-o por demais estatista -, mas ainda assim, acredito que educar é o único caminho. Outro dia conto sobre minhas idéias para essa área. Hoje não é dia de colocar opiniões valiosas ao sol: está chovendo.

Independente de quem ganhar, espero que ouça os conselhos do professor Buarque. E que os 3% ou 4% que ele alcançará sirvam para mandar um sinal ao vencedor: há gente no Brasil preocupada com educação.

[Ouvindo: California Sun - Ramones - Hey! Ho! Let's Go - Anthology (Disc 1)]

20 de setembro de 2006

Memorias

El cuarto se quedó sereno. Sin barullos ni lloros o sollozos. Solo la quietud. Yo podía escuchar el alma creciendo, la sangre cargando mis angustias, mis lágrimas que no salieron. Pasé los ojos por todo el cuarto y dijo adiós. Más no podía hacer.

Toda mí vida tendría las memorias de estos días. Toda mí vida me olvidaría de sus ojos, su pelo, su olor. Y mí olor sería su olor por dos o tres días. Solo quería que fuera más. Ahora, solo las memorias.

Pero mis memorias no serían más tus memorias. Ella me olvidaría. Pero yo no. No la olvidaría jamás. Por más que yo quisiera, no pudiera. Y yo quiero. Cuando envejecer, tendré la garantía que mi cerebro la olvidará.

[Ouvindo: Kiss To Build A Dream On - Louis Armstrong - All Time Greatest Hits]

10 de setembro de 2006

Um pouco de política

Política é assunto que evito nesse blog. Já preciso pensar muito nisso no trabalho, então tento desligar nas horas de lazer. E é isso que o blog é pra mim:lazer. Mas tem vezes que o cérebro insiste em pensar em eleição. Aí o melhor é não brigar com ele. Preciso demais do bichinho para me indispor de graça.

Pois meu cérebro pensou, dia desses, na bobagem que era a aposta de Luiz Gonzales, o marqueteiro de Alckmin, e dos cabeções da coligação PSDB-PFL. Eles acreditavam, ou pelo menos diziam que acreditavam, numa virada depois que o programa eleitoral gratuito fosse ao ar. Iriam tornar o tal Geraldo (quem?) conhecido, desconstruir o governo Lula (essa parte, colaboração das raposas pefelistas) e virar o jogo eleitoral, amplamente favorável ao indigitado que ocupa o Alvorada.

Pensando friamente, os escândalos envolvendo a petezada que se apoderou da máquina governamental não poderiam ganhar mais publicidade do que durante seu auge, na época do caseiro Francenido, da queda de Dirceu e Palocci, do mensalão. A imprensa toda, até a Globo, divulgou amplamente o rolo todo. E muito mais gente assiste aos telejornais nacionais das grandes redes do que aos programa eleitorais. O formato jornalístico é mais familiar, tem mais credibilidade. Programa eleitoral é pregação para o vazio, na maior parte dos lares brasileiros.

Por isso me custa a crer que profissionais de comunicação sérios e políticos matreiros e escolados realmente apostassem numa virada sustentada pelo programa eleitoral gratuito. Acho que jogavam para a torcida. Para não entregar os pontos.

Agora o tal Geraldo diz que nos últimos quinze dias é que a campanha começa pra valer. Só se for pra ele. FHC - aquele, vocês lembram - já entregou o jogo com uma cartinha. Até Jorge Bornhausen foi pego admitindo a vitória de Lula. Ao Globo, disse hoje que o PFL fará a maior bancada do Senado e a segunda será do PSDB. E em seguida emendou: "A oposição será maioria". Até o velho kaiser anda tomando lições de realismo.

[Ouvindo: Won't Get Fooled Again - The Who - Who's Next Deluxe CD1]

3 de setembro de 2006

Luão

Porra, eu tô seco. Uma trepada, uma cana, uma briga com um playboyzinho, qualquer coisa pra me tirar desse tédio sem fim. Um nada a fazer, olhando o reflexo da lua no mar com um John Player Special entre o indicador e o médio da mão direita. Merda. Isso é viver numa prainha fodida dessas, sem nada pra fazer. Uns amigos imbecis, que só querem andar de carro pra cima e pra baixo. Acham que tão impressionando, os manés. Gastando gasolina com nada, borracha no asfalto, fumaça no ar. Puta que pariu, nem um baseado pra me acalmar. Uma merda.

Uma praia que não se acaba mais. Cinquenta quilômetros de água e areia pra cada lado. A única coisa interessante deve ser um casal ou outro trepando entre as dunas. Quem não tem carro se vira assim. E eu que nem carro nem mulher tenho? O máximo que posso fazer é tocar uma punheta nas dunas. Não deve ser a mesma coisa. Também, nem tô com vontade mesmo. Tô seco mesmo é por uma cana ou um baseado.

Nada de grana. Se pelo menos rolasse um troquinho, se o meu velho não fosse tão regulão. Liberasse umas notinhas pra eu comprar umas doses de vodca. Aí pintava alegria. Mangüaçado eu descolava uma briga com um mauricinho metido e pronto, ia-se o tédio pras cucuias. Ou melhor, descolava uma vadiazinha, caçadora de surfistas. Se não pra trepar, pelo menos pra dar uns malhos, uns chupões bem dados nos peitos. Já tava bom. Mas nessa praia de merda não rola nada pra mim. Que se fodam todos.

O negócio é ficar aqui, sentado, deixando a areia entrar bermuda e cueca adentro, a umidade da noite se depositando no cabelo enquanto a lua sobe e se despede do mar, roubando o reflexo que ela mesma deu às águas. Indo embora devagar. Um halo redondo e amarelado no céu, pintando o céu ao redor, iluminando a espuma das ondas. Brilho estranho, como se exposto à luz negra da boate.

Se pelo menos a música bate-estaca parasse já era um ganho. Mas não, ainda é cedo pra que o bando de idiotas pare de dançar e suar. Não tenho nem dinheiro pra entrar naquela porra. Não ia adiantar muito, mesmo. Sem dançar, com cara de otário, economizando os cigarros e encostado num canto. Não ia pegar ninguém. Sem uma vodcazinha não ia chegar em mulher nenhuma.

Aí é que tá: não sei se a cana faz eu ganhar coragem ou embebeda a parte do meu cérebro responsável pela noção do ridículo. Assim, sóbrio, eu acho que é a segunda opção. Meio alto eu chego em qualquer mulher gostosa. Não tem stress. Se levar um corte, sem problema. Não vou nem notar que é um corte. Toca pra frente e faz andar a fila. Se não pegar nem um dragão até o fim da noite, tudo bem. Pelo menos eu tomei um porrete de esquecer tudo. E cheguei numas gostosas. É algo pra contar depois.

Falar em gostosa, quem é essa caminhando nas dunas? Nunca vi essa guria aqui. Deve ser mais uma dessas gauchinhas que vem passar o final de semana com a prima e os tios. Tá sozinho. O que te parece? Que você tá sozinho. É, tô. Tá a fim de um gole? O que é? Cuba.

Como eu precisava daquela cuba. Preferia sem a Coca, mas já servia. Fiquei um pouco menos seco. Pode me dar um cigarro. Nada mais justo, já que eu quase matei tua cuba. Qual teu nome? Martina. Nome incomum, hein? Minha mãe quem escolheu; leu num livro, não lembro qual. Mas é legal. É, eu também gosto. O meu é Jonas. Tu mora aqui? Morar não moro, só passo o verão. Eu sou de Porto. Nem precisava dizer, tinha adivinhado pelo teu sotaque. Xarope, né? Eu até que gosto na voz das gurias, mas não suporto um cara falando assim. Brigado. De nada.

Se eu dissesse tudo o que poderia elogiar nela, ia esgotar o estoque de obrigados. Definitivamente seis pontos na escala "ão": pernão, peitão, bundão, bocão, cabelão, olhão. Verdes. Nunca tinha visto assim, tão de perto, uma gauchinha morena com olhos verdes. Ainda mais bonita e gostosa como essa. E dessa vez eu tava sóbrio. Não era o Drury's nem a Orloff que tavam projetando aquela imagem no meu cérebro como o reflexo que a lua projetava no mar. Luão, hein? É, precisava ter visto quando ainda tava pertinho do mar: um reflexo bonito pra caralho. Imagino. Assim, comigo deitado, você fica na frente da lua e também dá um efeito massa. É? Teu cabelo fica mais bonito, teu perfil, a cor da tua pele. Pára que eu fico envergonhada. Que é isso, vai dizer que nunca te disseram o quanto você é bonita?

A olhadinha pra baixo. Ah, essa olhadinha eu conheço. Se faz de tímida, mas tá acostumada. Só reage assim porque sabe que eu quero que reaja assim. Mulher gostosa é fogo. Sabe como manipular o cara. Mas nessa ela se fodeu. Eu sei o que tô fazendo. Por que você veio sentar aqui comigo? Tu tava aqui sozinho, fumando, longe das conversas e da música, sem bebida, sem nada. E daí? Pensei: taí um cara diferente, interessante. Agora passou a impressão, ou ainda tá achando interessante. Tô te achando um cara até mais interessante. Isso porque nem comecei a falar de filosofia, de marxismo e religião. Ainda bem. Não gosta de nada disso? Não é que não goste; só não entendo. Então não vou falar. Agora fui eu quem pareceu desinteressante, meio burrinha, né?

Ela havia se tornado interessante pra mim desde o momento em que sentou a bundinha linda na areia. Foi só passar o braço por trás dela que tava dada a deixa. Agora erámos nós e o luão já a meio céu. Eu tava bem menos seco do que no início da noite. Talvez a vida não fosse uma merda, a praia não fosse uma merda, dinheiro não fosse tudo e eu não precisasse de um carro, cana ou baseado pra dar uns malhos numa guria gostosa. Duvido, mas é melhor aproveitar a sorte.

[Ouvindo: Le Grand Tango - Yo-yo Ma - The Music Of Astor Piazzolla]

2 de setembro de 2006

Que semanas!

Ah, meus caros, foram três semanas daquelas. Viajei a trabalho ou estudo seguido. Pilhas de coisas por fazer se acumularam no meu e-mail (ninguém mais usa papel, não é verdade?) e corri como louco. Mas agora acalmou um pouco. Nesse final de semana dá até pra blogar.

Ficou mais fácil postar por aqui depois de eu conseguir uma cópia de um programinha que sou fã, o w.bloggar. Infelizmente, o site do desenvolvedor está fora do ar e não pude baixar o software de novo depois que troquei minha máquina. Mas consegui num CD de backup antigo uma versão que me serve bem. Uso-a para escrever agora.

[Ouvindo: Neighborhood #1 (Tunnels) - The Arcade Fire - Funeral]